Sombras de Silêncio #238

A meio da manhã, o barulho do Citroën voltou a escutar-se na planície. Miguel, seguindo as indicações de Gabriel, subiu o monte e foi refugiar-se no moinho. O carro estacionou e Pablo saiu sozinho. Foi depois abrir o porta-bagagem e convidou todos à volta para verem o que ele tinha comprado. Tirou então quatro toldos, feitos de nylon, e abriu um deles, maravilhando os presentes com a novidade que resolvia o problema dos toldos encharcados. Aqueles deixavam passar a água, mas não as azeitonas. Bastava sacudir para todas as gotas desaparecerem. Isabel ficou tão impressionada que se pôs a bater palmas à destreza do marido. Pablo estranhou a ausência de Miguel, mas Gabriel informou que o mandara arrumar o moinho e que ele deveria estar por lá. Gabriel foi chamá-lo e, durante a tarde, todos voltaram para a apanha da azeitona. Apesar de Miguel se ressentir da gripe, quis trabalhar como se ainda tivesse a força da juventude. Trabalhou ainda mais por descobrir que os seus receios eram infundados.

Os dias sucederam-se. Miguel lá foi vivendo conforme Gabriel aconselhava e os donos da quinta permitiam. Ao cabo de duas semanas já não havia oliveiras em falta. Pablo carregou mais de quinze mil quilos para o lagar e teve um retorno de mais de dois mil litros de azeite, já descontando os litros que serviram para pagar a maquia. Era uma colheita bastante acima do que era habitual. Surgiu assim o final do acordo anual que Pablo mantinha com Carlos e Gabriel, que ali apareciam sazonalmente e depois iam para outras paragens. Apesar de as condições não serem as melhores, já era o terceiro ano que Gabriel lá trabalhava, enquanto Carlos ia no sétimo. Porém, existia uma ligeira diferença salarial entre ambos. O espanhol recebia cinquenta pesetas por dia de trabalho e ao português eram descontadas dez pesetas pelo risco da clandestinidade. Para Gabriel, a época em Espanha iniciava-se em setembro, um pouco mais a sul, com as vindimas. Depois apanhava boleia até à quinta de Pablo e por lá ficava nos meses de dezembro e janeiro, regressando depois a Monsaraz.

Sombras de Silêncio #238

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