Serra! E qualquer coisa dentro de mim se acalma

Serra!

e qualquer coisa dentro de mim se acalma…

Qualquer coisa profunda e dolorida,

Traída,

Feita de terra

e alma.

Uma paz de falcão na sua altura

A medir as fronteiras:

Sob a garra dos pés a fraga dura,

E o bicho a picar estrelas verdadeiras..

Miguel Torga  

Diário II

 

Serra do Gerês. Algum tempo antes do evento ganhar a luz da publicação esgrimia a vontade a favor da melhoria do tempo para que por fim pudesse pernoitar no Curral da Rocalva. Contudo, quando outros impedimentos se atravessaram no caminho comecei a exasperar por uma outra oportunidade. Este evento veio no momento certo e ao abrigo das minhas intenções. Faltava apenas que a meteorologia ajudasse e alguma alma companheira piedosa tivesse disponibilidade para a pernoita no domingo.

Com a aproximação da data as circunstâncias foram-se aprimorando e o regresso ao coração do Gerês foi ganhando contornos de certeza. Depois de uma viagem pela madrugada, subi desde a Portela de Leonte e passei por vários prados, num percurso que acabou por me atrasar para o evento. Estando no Prado do Conho desfiz-me em dúvidas por onde continuar e fiz-me na certeza que não faria nada bem ao meu âmago deixar passar a oportunidade e o desvio de conhecer as portas encimadas do grande vale do Touça.

Sabia de antemão que, com o pouco tempo que tinha, não seria fácil conseguir cumprir o programa, mas não me deixei esmorecer. Sabia também aonde deveria ir primeiro para aceder mais facilmente ao local, mas os quilómetros em excesso convenceram-me a tentar uma abordagem a direito. Contudo, à medida que me aproximei do cume do monte fiquei apreensivo: continuava a subir e o rio, por onde teria que passar, descia cada vez mais. Quando cheguei ao topo senti um suor frio na alma. Ainda considerei voltar para trás, mas não resisti e segui em frente. No início não foi difícil, mas rapidamente meti-me em trabalhos, com o olhar pendurado na vertigem, a mochila pesada nas costas e a máquina fotográfica a saltar entre as mãos. Com algum sangue frio lá continuei a descer e segui por uma linha de vegetação. Após chegar ao rio, e ao ter uma nova perspetiva do que teria que subir, arrependi-me da decisão, mas tal já não me valia. Atravessei o rio e iniciei a subida. No início foi um pouco complicado pois era a parte mais inclinada e exposta. O peso da mochila também não ajudava.

Apesar das dificuldades, lá consegui continuar e pelo meio ainda encontrei um conjunto de mariolas que me ajudaram a chegar ao topo. É extraordinário como mesmo nos locais mais inóspitos existem estes guias fantásticos. Ao chegar lá acima, aproximei-me do cume e atirei a mochila para o chão e pude por fim descansar. Estive alguns instantes a recuperar o fôlego e ergui depois o olhar para o enorme vale que estava à minha frente. Naquele lugar de gigantes senti-me um pequeno grão, entre a solidão do universo. Feito o registo, e como ainda estava longe do Prado da Rocalva e do evento, optei por almoçar lá. Esta foi sem dúvida uma descoberta memorável! Depois, e como teria muitas dificuldades em fazer o caminho de volta, sem saber muito bem o que iria encontrar, ainda assim optei por seguir pela crista do monte e lá consegui descer até ao rio, seguindo depois para o evento.

Quando me aproximava da Rocalva, o João informou-me que o grupo se dirigia para determinadas coordenadas, que descobri depois referenciarem o cume do Coucão. Atirei-me para lá. Foi no topo daquele monte que os encontrei e na base assinei a presença. Fiquei então a saber que tinha perdido um sorteio, mas ainda fui a tempo do resto. Fiquei com pena de não ter chegado a tempo para a confraternização, que pelo que li e ouvi foi em grande. Ficará para uma próxima.

Depois de uma passagem pelas Fichinhas, segui finalmente para a Rocalva, sabendo que o Rei deveria andar por ali. Apenas o encontrei no seu regresso do Cutelo de Pias e no tempo restante aproveitei para descansar. Arranjámos um pouco de lenha para enfrentar o frio da noite e, ao aproximar-se o pôr-do-sol, seguimos até ao Cutelo de Pias. O topo do gigante granítico oferece uma vista esplendorosa para o vale do rio Conho. O sol pendia em despedida no horizonte, dando-nos uma panorâmica excelente.  

Voltámos depois ao curral e jantámos. Quando a escuridão caiu acendemos uma fogueira e metemos a conversa em dia, num grande prazer em partilhar o coração da serra com quem melhor lhe conhece os segredos. Tinha a esperança que o céu pudesse continuar sem muitas nuvens para fotografar, mas enganei-me redondamente. O tempo geresiano é realmente muito inquieto! Uma hora depois do pôr-do-sol já o céu estava coberto de nuvens negras e um nevoeiro cerrado cobria as rocas à nossa volta. Pouco depois começou a chover e nós já não saímos do curral. Passei a noite à cata das estrelas escondidas nos sonhos. Ia preparado para o possível frio, mas a fogueira e o facto de o curral ter alguma palha espalhada pelo chão facilitaram a pernoita. As brechas nas paredes do curral traziam uma brisa fresquinha de expetativas para as aventuras do dia seguinte!

(continua)

 

Serra! E qualquer coisa dentro de mim se acalma

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