Contos da Montanha de Vilarinho da Furna

“Tinham findado de todo os horizontes largos do planalto, onde a alma corre de fraga em fraga, sempre à vista do céu. Encostas negras, em escada, cobertas de estevas ou eriçadas de zimbro, faziam tudo para entristecer quem lhes passava ao pé. À esquerda, um despenhadeiro de meter medo; à direita, uma penedia por ali acima, que só de vê-la faltava a respiração; ao longe, mortórios escalvados e desiludidos. Mas o grande rio doirado, que a luz da tarde transformara numa barra cintilante, chamava a si toda a atenção dos olhos, e a paisagem emergia do abismo engrandecida e transfigurada.”

Miguel Torga, Contos da Montanha, “A Vindima”

 

Requiem

Viam a luz nas palhas de um curral,

Criavam-se na serra a guardar gado.

À rabiça do arado,

A perseguir a sombra nas lavras,

Aprendiam a ler

O alfabeto do suor honrado.

Até que se cansavam

De tudo o que sabiam,

E, gratos, recebiam

Sete palmos de paz num cemitério

E visitas e flores no dia de finados.

Mas, de repente, um muro de cimento

Interrompeu o canto

De um rio que corria

Nos ouvidos de todos.

E um Letes de silêncio represado

Cobre de esquecimento

Esse mundo sagrado

Onde a vida era um rito demorado

E a morte um segundo nascimento.

Miguel Torga

“Gerês, 6 de Agosto de 1968 – Derradeira visita à aldeia de Vilarinho da Furna, em vésperas de ser alagada.

(…) E assim, progressivamente, foram riscados do mapa alguns dos últimos núcleos comunitários do país. Conhecê-los, era rememorar todo um caminho penoso de esforço gregário do bicho antropóide, desde que ergueu as mãos do chão e chegou a pessoa, os instintos agressivos transformados paulatinamente em boas maneiras de trato e colaboração. Mas eu ainda sou pela ordem voluntária no ócio e no trabalho, por uma disciplina cívica consentida e prestante, a que os heréticos chamam democracia de rosto humano. De maneira que gostava de ir de vez em quando até Vilarinho presenciar a harmonia social em pleno funcionamento, sem polícias fardados ou à paisana. Dava-me contentamento ver a lei moral a pulsar quente e consciente nos corações, e a entreajuda espontânea a produzir os seus frutos. Regressava de lá com um pouco mais de esperança nos outros e em mim.”

Miguel Torga, Diário XI

Em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês [PNPG], no sopé da Serra Amarela, encontram-se as ruínas de Vilarinho da Furna (também conhecida como Vilarinho das Furnas, sobretudo após a construção da barragem), uma antiga aldeia comunitária, cujas leis e formas de vida ancestrais descendiam das próprias brumas geresianas, desde o período romano. Acabou por sucumbir ao corrupio da modernidade pela construção de uma barragem e a história tornou-se subaquática. Como a maior parte das aldeias serranas do norte de Portugal, Vilarinho da Furna era constituída por um aglomerado de casas graníticas, alinhadas umas pelas outras, formando ruelas sinuosas. As casas de habitação compunham-se geralmente de dois pisos sobrepostos e independentes: uma loja térrea, destinada aos gados e guarda de alfaias e produtos agrícolas, e um primeiro andar para habitação propriamente dita.

O povo de Vilarinho, para além das leis vigentes no país, tinha as suas leis internas, que eram escrupulosamente respeitadas e cumpridas. Para isso havia uma Junta, encabeçada por um Juiz (ou Zelador) e que era acompanhado por seis Deputados. Aos deputados, eleitos entre os habitantes, competia criar e votar as “leis” e ao juiz aplicá-las, sendo que em caso de empate o juiz tinha voto de especialidade. A eleição do juiz decorria, semestralmente, de uma lista, num sistema rotativo e consecutivo, de todos os homens casados da comunidade.

A Junta reunia, normalmente, todas as quintas-feiras, sendo que o juiz, ao raiar da aurora, tocava um corno de boi, convocando os seus ajudantes para a “união”. Ao findar o terceiro toque dirigia-se para o largo de Vilarinho, levando uma caixa onde se encontravam as Folhas da Lei. Também poderia haver uma “união” na parte da tarde, realizada junto aos campos, na ponte romana sobre o rio Homem. Era nestas assembleias que se determinavam os trabalhos a realizar e as “condenas” (sanções monetárias pelas ausências e outras condenações).

Os assuntos principais incidiam sobre a construção e reparação dos caminhos, muros e pontes de serventia comum, a organização pastoril (vezeiras), organização dos trabalhos agrícolas (malhadas, desfolhadas, vindimas, roçadas e a distribuição da água das regas). As atribuições do juiz eram tais que poderia, em caso muito grave, expulsar ou marginalizar alguém do sistema comunitário, deixando o mesmo de ser considerado “vizinho”, o que na prática significava que, futuramente, ninguém o poderia ajudar em nada, recebendo inclusive “condenas” se tal acontecesse. Ele era também o decisor de todos os crimes, com excepção para o homicídio, considerado competência dos tribunais.

Poderão saber mais sobre esta antiga comunidade, clicando na imagem seguinte, num extraordinário documentário realizado durante os últimos doze meses antes de a aldeia ser submersa.

Conta-se ainda que a última incumbência do último juiz de Vilarinho da Furna foi precisamente a de esconder a caixa com as Folhas da Lei, numa fraga da serrania que envolve a aldeia, de tal forma que as águas macilentas e represadas pela barragem não lhe afogassem o passado. Através dos Contos da Montanha terão a oportunidade de ir em busca dessa memória, sendo que Vilarinho é o ponto de partida para a descoberta. Poderão começar por visitar o Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna, onde foi reunido parte do espólio cultural e histórico da aldeia. Depois, para concretizarem a descoberta deverão deixar o veículo estacionado na barragem e seguir até à antiga aldeia, onde poderão descobrir a Aldeia Subaquática.

Durante o verão, e em alturas de maior estio, a diminuição da cota das águas permite observar uma boa parte das ruelas e edifícios entretanto submersos. O acesso à aldeia é propriedade da associação dos antigos habitantes de Vilarinho, AFURNA, e, dependendo do dia e da altura do ano em que lá forem, poderá ser cobrada uma taxa de passagem.

 

Para chegar à Caixa das Leis devem seguir-se os pontos disponibilizados. Existe sempre trilho até ao final e parte do desafio é encontrá-lo. Deverão prosseguir até à ribeira do Eido (ou ribeira das Furnas), onde encontrarão o Moinho de Cubo, o único edifício que ainda se mantém de pé por lá. O moinho, na frecha do tecto, alberga uma comunidade de morcegos. O moinho é ainda uma referência para o início do trilho. Um pouco mais à frente irão encontrar o que restou de uma via romana (em parte visível na imagem acima colocada), que sobe a encosta até ao prado de Porto Covo, onde poderão encontrar as ruínas de um antigo abrigo. Daqui poderão encetar a viagem final na descoberta da caixa, que está numa fraga das proximidades. O regresso deverá ser feito pelo percurso inverso. No total (ida e volta), a descoberta desta experiência implica uma caminhada de cerca de 15 quilómetros.

Dedicado ao Mestre Torga, que soube, como ninguém, transformar em palavras a beleza quase inefável destas montanhas, por onde gostava de reencontrar-se, e a vida das suas gentes. Enquanto houver memória neste mundo será uma inspiração tangível. Dedicada também ao legado esquecido de Vilarinho da Furna e do seu povo, entretanto disperso. Talvez um dia venhamos a descobrir que existem barragens a mais nas nossas vidas; algumas, ainda que nos encham de energia, levam-nos a essência.

Muito mais haveria para dizer sobre esta aldeia e este povo, assim como sobre as suas histórias, transformadas em Contos da Montanha pelo dealbar da modernidade. Porventura, Vilarinho, que se criou nas águas do rio Homem, sempre alheio a tudo o que existia ao seu redor e fechado num viver de experiências feito, já não pertenceria a este mundo; talvez já tivesse sido submerso pelas furnas do tempo ainda antes de a água lá ter chegado.

A gente não lê

Ai Senhor das Furnas
Que escuro vai dentro de nós,
Rezar o terço ao fim da tarde,
Só pr’a espantar a solidão,
E rogar a Deus que nos guarde,
Confiar-lhe o destino na mão.

Que adianta saber as marés,
Os frutos e as sementeiras,
Tratar por tu os ofícios,
Entender o suão e os animais,
Falar o dialecto da terra,
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais.

E do resto entender mal,
Soletrar assinar de cruz,
Não ver os vultos furtivos,
Que nos tramam por trás da luz.

Ai senhor das furnas,
Que escuro vai dentro de nós,
A gente morre logo ao nascer,
Com os olhos rasos de lezíria,
De boca em boca passando o saber,
Com os provérbios que ficam na gíria.

De que nos vale esta pureza,
Sem ler fica-se pederneira,
Agita-se a solidão cá no fundo,
Fica-se sentado à soleira,
A ouvir os ruídos do mundo,
E a entendê-los à nossa maneira.

Carregar a superstição,
De ser pequeno ser ninguém
Mas não quebrar a tradição
Que dos nossos avós já vem.

Carlos Tê, interpretação de Isabel Silvestre

Contos da Montanha de Vilarinho da Furna

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