Arada Ultra Sunrise

No ano passado, certo dia, estava sossegado no sofá e eis que me passou pela cabeça que seria interessante ir ver nascer o sol ao São Macário e fazer de seguida uma volta pelos fantásticos trilhos da zona. Deixei-me ficar quieto, mas ideia ficou a marinar, à espreita de uma oportunidade, que acabou por confluir num dia de vários níveis de férias.

Antes de avançar tratei de validar a ideia com as quatro pessoas a quem tenho de prestar contas. Comecei pela minha versão de 8 anos, que ficou entusiasmada. Validei depois com a minha versão de 80 anos, que apesar de estar mais reticente, talvez a pensar nas dores por vir, acabou por concordar. As outras duas pessoas, mais reais, seja por hábito ou por desconhecimento, também não se opuseram.

Mal dormido, lá me fiz ao caminho e cheguei ao São Macário a tempo e horas do nascer do sol. O local não tem a magnificência do Cântaro Magro, mas é um bom sítio para a ocasião, com o relevo a espraiar-se calmamente até ao horizonte. No céu, engalado de nuvens, a primeira luz deixou um rasto de fogo. Na terra, ter o carro ao lado ajudou a suportar o vento frio.

Depois, com tudo preparado, fiz-me ao caminho. Precisava de terminar antes das 17h e o plano estava sujeito a vários atalhos, conforme a dificuldade em vencer a distância. Ainda na descida do monte cruzei-me abruptamente com uma manada e o seu cão de guarda, ainda a dormitarem a preguiça. O vigilante mal levantou a cabeça e espirrou de desinteresse ao ver-me passar.

Seguiu-se uma longa descida até Massagoso, mais uma aldeia abandonada da região. Foram-se as pessoas e ficaram as paredes de xisto. O trilho continuou a descer até ao Fujaco, onde optei pelo caminho certo, ao invés do trilho desconhecido, subindo pelo longo estradão de regresso às eólicas.

Aproveitei para esticar as pernas pelo planalto e segui monotonamente até perto de Póvoa das Leiras, onde enveredei numa longa descida até ao rio Paivô, passando pela zona dos decadentes três pinheiros. Aproveitei para almoçar junto à antiga ponte do rio e prossegui a montante, saltando de pedra em laje, num desafio constante em manter os pés secos. Com alguma engenharia e outras macaquices lá consegui. Passei pela abandonada aldeia do Pêgo e continuei mais um pouco pelo rio até à cascata da Garra.

Correndo contra o tempo, optei então por subir o monte e prossegui para a aldeia mágica pelo trilho secular. A Drave está cada vez mais bonita. De abandonada, passou a ser parte da geografia sentimental de muita gente, nomeadamente da comunidade escutista, que a vai recuperando e embelezando. Apesar de não ter habitantes, de todas as vezes que lá fui encontrei sempre alguém. Resiste por ali um encanto extraordinário e cada regresso sabe sempre como uma espécie de regresso a mim.

Calcorreando as ruelas e os recantos, com as saudades retemperadas, subi pela ribeira de Palhais e continuei depois pela encosta em ziguezague até ao Portal do Inferno. Baralhei as contas ao tempo e apesar da muita vontade em descer para Covas do Monte e prosseguir para a Pena pelo Caminho Onde o Morto Matou o Vivo, acabei por ceder à razão e seguir direto para o São Macário. Cerca de 39 km de distância e 1800 metros de subida acumulada depois, chegava ao fim o meu dia de liberdade na Arada, onde cada volta encerra a promessa de mais um regresso. Até lá.

Arada Ultra Sunrise

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