Travessia das serras Peneda-Soajo


Nas minhas diversas peregrinações ao Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), as serras Peneda e do Soajo nem sempre tiveram a atenção que merecem. Para colmatar, idealizei uma travessia linear com passagem em alguns locais emblemáticos, como o VG Peneda, a Pedrada, várias Brandas, Couto Grande e a Mata do Ramiscal. O local escolhido para o início acabou por ser a Branda de Santo António, onde se podem alugar excelentes casas típicas, com o final a coincidir na aldeia de Lordelo. Com alguns desvios pelo meio, a distância total acabou por chegar aos 36 km, numa excelente viagem solitária pela montanha de dia inteiro e alma cheia.

Manhã cedo, mal o sol espreitou nas encostas, saí da Branda de Santo de António e segui até à Aveleira, cumprimentando o santuário serrano da Senhora da Guia. A montanha ainda dormitava e o silêncio apenas era cortado pelo mugir das vacas e o latir dos cães. Desci a encosta, atravessei o rio Vez e cheguei à Branda do Furado, onde estive à conversa com um pastor. Segui depois por um trilho, cada vez mais fechado, até à abandonada Branda do Real, onde aproveitei para me perder numa exploração do espaço e do tempo. Temia que o trilho na parte superior do vale do rio Vez estivesse mais fechado, mas acabei por encontrar um caminho que ainda é usado pelos pastores da região.

Notando que o caminho contornava o meu ponto de interesse seguinte, alterei a abordagem e segui a corta mato na direção do VG Peneda. Após uma subida rochosa mais inclinada, apenas tive algum desnorte ao entrar numa zona labiríntica de vegetação alta, usada pelas vacas e cavalos para se esconderem do calor da serra. Ultrapassado o desafio, subi sem dificuldades até ao planalto do grande VG. Ascendi depois à construção, maravilhado com as vistas. Segui então até à beira do planalto para espreitar o vale do rio Vez, desde a Branda de Santo António até às encostas escondidas de Sistelo, e fiquei a fazer planos para uma nova visita.

Continuando a viagem, entrei em modo corrida, desci a encosta em direção à Pedrada, o ponto mais alto da serra do Soajo, e parei apenas no cruzamento de acesso à Branda Poulo da Seida. Apesar das dúvidas, não resisti a revisitar este magnífico local, passando antes nas proximidades da nascente do rio Vez. Após visitar a Branda subi a encosta e fui até ao limite do monte, de onde era possível ter uma vista alargada para as serranias envolventes e as memórias de aventuras passadas, como por exemplo na Fraga das Pastorinhas. Descendo a outra encosta fui conhecer o fojo do lobo que existe no local, uma armadilha de muros convergentes, com centenas de metros, num fosso, para onde os animais eram atirados.

Aproveitando o muro do fojo, subi depois a encosta na direção da Pedrada, o ponto mais alto da zona. Ao terminar a subida gradual aproveitei para almoçar e descansar um pouco junto à casota, num cenário com vistas panorâmicas para todos os quadrantes. Na descida da Pedrada segui em direção à Branda de Bragadela, acompanhando a partir de certo ponto o muro do fojo do Mezio. Passando pelo abandono da branda, voltei a subir a encosta e apanhei o caminho que contorna a vertente superior da Mata do Ramiscal. Entrei depois no espetacular trilho empedrado que desce a encosta até ao Fojo da Cabrita, emoldurado pelos magníficos conjuntos de arvoredos, caraterísticos da zona.

Deixando a Rota dos Bicos para Avelar, decidi fazer um desvio às Brandas das Suengas, de Albar e da Lombadinha. E já que ali estava, continuei um pouco mais e fui até ao Couto Grande, de onde se tem vistas magníficas para os vales encaixados que descem da montanha pela Mata do Ramiscal, avistando ao longe Avelar e Lordelo. Ainda me senti tentado em continuar pela crista do monte até ao rio Ramiscal, mas como não conhecia a zona optei pelo mais seguro e voltei às brandas e ao Fojo da Cabrita, de onde continuei a longa descida para Avelar. Passei pela aldeia típica em modo acelerado e segui pelo caminho antigo em direção ao rio, tendo sido então envolvido pela exuberância da Mata do Ramiscal, banhada pelos raios dourados do sol ao entardecer. Subi depois pelo caminho serpenteante para Lordelo, onde a caminhada finalmente terminou, cerca de 11 horas e 36 km depois. Ficará na memória mais uma excelente aventura, num regresso para conhecer um pouco mais do PNPG e de mim.

 

 

Travessia das serras Peneda-Soajo

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