Sombras de Silêncio #76

Uma das primeiras preocupações do sargento na sua nova casa foi guardar o enigmático relógio de bolso. Esconde-o num buraco que fez num barrote da cama, mesmo à cabeceira e por baixo do colchão, tapando-o depois com duas tiras de madeira. Quer fosse pela decisão de se afastar de Lisboa ou pela influência de Afonso Pala, Carlos foi recuperando a sensação de segurança e não voltou a ter desencontros indesejados. Ainda assim, desconfiava sempre de qualquer rosto desconhecido que o fitasse demoradamente e suspeitava que, mais cedo ou mais tarde, alguém lhe cobraria a audácia de ter alterado o tempo alheio.

Tancos era uma terra de gentes dedicadas à pesca e ao comércio de produtos que o rio ia escoando. Depois de acomodarem os poucos pertences que trouxeram de Lisboa, Carlos e Joana voltaram-se para o cultivo da pouca terra anexa à casa, delineada por amontoados de pedras. À medida que o tempo foi entregando as águas do Tejo à saudade, a família ambientou-se e Carlos integrou-se no trabalho, salvaguardando a segurança da linha de caminho-de-ferro. Quando o ano dobrou, o sargento era responsável por uma equipa de cinco praças.

Joana agradeceu muito a mudança. Deixara cair a ambição cosmopolita, mas ganhara uma família. Gostava em particular dos passeios domingueiros a cavalo, sempre que o tempo e as obrigações o permitiam. As encostas do rio e as matas circundantes eram aprazíveis de explorar e o bucolismo próprio da região acentuava o carácter romântico de Carlos, que ela julgara desaparecido. Apreciavam bastante as deslocações a Constância, onde o canto lírico ainda ecoava na doce brisa que passava pelas ruelas seculares, acalmando a fúria do encontro das águas ibéricas. Por vezes, também aos domingos, apanhavam o comboio e desciam o Tejo até Vila Nova da Rainha para visitarem a família de Carlos. Miguel também aprovou a mudança de ares. Ali poderia correr e brincar à vontade. Inclusive, a província pareceu facilitar-lhe a fala.

Tancos era um entreposto importante nas trocas comerciais que se desenvolviam a jusante do rio e até Lisboa. À medida que a profundidade do leito e a navegabilidade o permitiam, os celeiros e as pipas iam esvaziando, permitindo uma sustentabilidade agradável das margens à custa dos homens que arriscavam a vida nas travessias. A pesca era um pilar importante da região. O tresmalho, a varina, a savara, o sabogar, a nassa, a tarrafa e o camaroeiro eram complementos dos homens, que se deitavam ao rio na esperança de que ele não se tornasse no seu leito perene. A primavera era particularmente profícua, aquando da desova da saboga.

Sombras de Silêncio #76

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