Sombras de Silêncio #126

Ao ver que o tio subia a escadaria, Miguel encafuou-se debaixo da mesa do terraço, ao lado de um molho de silvas secas que a mãe ali colocara para acender a lareira. De seguida, Arnaldo estendeu-lhe a mão, apanhou-o por uma perna e puxou-o com violência. Miguel tentou agarrar-se às silvas e ficou bastante arranhado. As marcas ficariam gravadas na sua pele, apontando o caminho para a palma da mão como se indicassem as orientações de um destino incerto. Entre pontapés, socos, palavrões e outras ofensas, o rapaz foi clamando por ajuda. Entretanto, Joana aparecera no terraço e quis travar o cunhado, mas recebeu um empurrão que lhe estatelou o futuro.

Com o alvoroço, também Simão e a mãe se juntaram. Mas não ousaram intrometer-se na contenda. Arnaldo, à medida que lhe atirava cinturadas de nódoas, ia soletrando a sua fúria de injúrias. Quando terminou sessão de pancadaria afastou-se e foi beber um copo de vinho à cozinha. Entretanto, Joana aproveitou para arrastar o filho para o quarto e contentava-o com todo o carinho que tinha disponível. Miguel chorava a perda eminente de Estela em soluços de dor. Joana abraçou-o e tentou resguardá-lo de toda a tristeza que soprava no amanhecer escarlate. Miguel desejou voltar atrás, para qualquer lugar ou tempo, onde ou quando não sentisse aquele ardor que lhe consumia o peito. No seu mundo, Estela retomou os balidos aflitos, que ficaram depois engasgados e tendencialmente ténues, até desaparecerem em breves espasmos que perdurariam na memória de Miguel. Mãe e filho ficaram agarrados por largos momentos, chorando o fado e a sorte madrasta. Acabaram por adormecer a esperança de o sonho eufemizar a realidade.

Nos dias seguintes, Miguel não conseguiu encontrar coragem nem vontade para encarar ou estar perto de Arnaldo. Tencionava nunca mais lhe dirigir a palavra, mas a mãe resfriou-lhe a vontade e aconselhou-o a ter calma, já que o cunhado começara a fazer ameaças de o expulsar da casa. Joana ia tentando sarar as quezílias, odiando o cunhado por aquilo que ele fizera, mas reconhecendo que a vida poderia tornar-se bem mais difícil do que já estava. Quando não se tem muito, é mais tentador perder o orgulho do que ganhar a fome. Certo dia, pelo jantar, Joana conseguiu tirá-lo do quarto, convencendo-o a sentar-se à mesa da cozinha com todos. Porém, Arnaldo não estava disposto a facilitar-lhe a vida.

Sombras de Silêncio #126

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