Gerês, do Campo à Nevosa num Laço, Lá e de volta outra vez

No amanhecer inocente de umas breves férias geresianas em modo piscina, levantei-me com os lobos para um percurso pelo coração da Serra do Gerês. O plano era ambicioso, mas a vontade ilusória estava em alta. Depois de alguma hesitação, no último momento acabei por me decidir em levar calções, o que se revelaria precipitado, mas o objetivo era aproximar a aventura a uma verdadeira experiência de trail, já que este ano está parco em provas.

Saí ao raiar do dia do parque da Cerdeira no Campo do Gerês e segui em modo corrida pelo estradão da albufeira de Vilarinho da Furna. O sol ainda estava por trás dos montes, pintando o céu num tom alaranjado. Mais adiante, depois dos marcos miliários, encontrei os trabalhadores que andam a empedrar o caminho e prossegui pelo trilho em direção à Portela do Homem. Esgueirando-me pela passagem, fui subindo pela Encosta do Sol, um dos meus trilhos preferidos da zona, mormente pelas magníficas vistas que proporciona para o grande vale do rio Homem.

Segui lesto e fiz apenas uma paragem no Arco, continuando depois para as Albas e acelerando para a primeira decisão do dia, na encruzilhada dos trilhos entre as minas. Acabei por seguir em frente e subi ao Pico Sobreiro, descendo depois em linha reta para uma pequena paragem no Altar dos Cabrões. Atravessei o vale e subi ao Pico da Nevosa, para uma nova passagem pelo ponto mais alto da serra do Gerês.

Ao regressar subi a encosta para as Minas dos Carris e vaguei por lá perdido do tempo, passando pela pequena albufeira, pelas ruínas dos antigos edifícios e pelo poço mestre vertical do complexo mineiro, entretanto vedado e sinalizado. Parece que a qualquer momento a estrutura empedrada pode cair para o buraco, com cerca de 155 metros, mas vai-se aguentando. Apenas por percorrer a superfície, e sem mais detalhe, é difícil ter a perceção da dimensão da infraestrutura que, mais tarde e levado pela curiosidade, a IA ajudaria a esquematizar numa imagem.

Os pontos de água que tinha referenciado estavam secos ou quase secos, pelo que, saindo da zona das minas, desci pelo trilho e fui procurar água corrente no alto do rio Homem. Prossegui depois pelo trilho que passa ao lado dos Cocões do Concelinho. Por esta altura, quaisquer que tivessem sido as causas ou a conjugação, já o corpo se ressentia e o estômago dava sinais de insatisfação.

Um pouco depois vi pela primeira vez uma víbora na natureza, ainda que a mesma já tivesse entregado a alma ao criador. Deveria ter seguido para os Prados da Messe, mas acabei por manter o plano e segui para Porta Roibas em busca das míticas paisagens das Sombrosas. Depois de passar pelo abrigo, a vegetação foi adensando o trilho. Mais abaixo, quis atalhar o acesso até à cabana da Touça, mas acabei por me meter em trabalhos picantes. Cheguei ao rio e enfiei-me finalmente dentro de água para amenizar os padecimentos do corpo.

Depois de um breve descanso voltei ao trilho para a subida do vale do rio Laço, cujo final, ao longe, se afigurava exigente. Uns passos mais à frente, enquanto a mente já pendia também para o cansaço, pensei que a música poderia desanuviar o ambiente, mas ao procurar os earbuds percebi que os perdera. Fiz umas contas rápidas ao preço da perda, passei a meia hora seguinte à procura deles e foi apenas, por sorte, no momento antes de desistir que os encontrei.

Passaram mais de treze anos desde a minha última deambulação pelo vale do rio Laço e a progressão está mais difícil. O trilho desaparece amiúde e é necessário frequentemente confirmar o percurso. Já com algum desgaste físico e psicológico, ainda que a sombra do arvoredo ajude, confirmou-se a exigência da progressão. Ao chegar ao abrigo deitei o cansaço pelo prado e fiquei por lá algum tempo. Alcançado o topo, no Estreito, tornou-se evidente que o plano de voltar ao Campo do Gerês, com passagem pela Rocalva, Prado do Vidoal e Pé de Cabril, teria de ser revisto.

Desci pelo trilho da cabana Pradolã, consegui livrar-me do silício apenas um pouco antes de chegar à cabana do Pinhô e ao cruzar a ponte do rio Conho voltei a ver um ser humano. A estirada final pelo estradão pareceu um passeio no parque, até à cascata do Arado, local marcado para o reencontro com as princesas, que me vão permitindo estes devaneios e ajudando sempre que tenho mais olhos de montanha do que barriga para a vencer.

Para trás tinham ficado cerca de 47 km e 14 horas de uma nova aventura geresiana, desta vez de introspetiva solidão consentida, a juntar a outras memoráveis e de vários contextos. Talvez devesse ganhar juízo, mas à medida que o tempo passa, o corpo recupera e a memória se deixa enganar, fica sobretudo a nostalgia e a vontade de planear a próxima.

Gerês, do Campo à Nevosa num Laço, Lá e de volta outra vez