
Depois de, nos últimos dois anos, ter passado por um suor de humildade em Aveiro e de uma boa experiência no Porto, o principal plano de corrida para 2026 passava pela Maratona de Lisboa. Como é normal nestas coisas, os planos vão sendo adaptados às circunstâncias e o treino de preparação acabou por ficar restrito a agosto e setembro, após um período de recuperação de uma lesão no pé esquerdo. Pelo meio aproveitei para regressar à Meia Maratona do Porto, numa corrida um pouco atribulada. A preparação foi curta e não ter chegado aos 30 km a terminar minimamente bem deixava-me muito desconfiado para o que teria de enfrentar na prova a partir dessa distância.
Nos dias antes exagerei um pouco no consumo de hidratos e quando cheguei ao dia ainda o corpo estava a fazer contas aos excessos. Por outro lado, o cérebro passou a noite ocupado a decidir o ritmo e os momentos de alimentação/hidratação. Bem cedinho, apanhei o comboio e cheguei a Carcavelos numa multidão de sonhos. Feitos os preparativos, segui para o meu ponto de partida, entre a inquietude natural do momento.
Por muito que a consciência tentasse avisar que os primeiros quilómetros deveriam ser corridos num ritmo mais lento, as pernas acabaram por ganhar vida própria e aproveitaram ligeira descida, caindo na armadilha. É curioso como a mente se deixa enganar pela esperança, ignorando os problemas futuros, mesmo que reconheça a sua inevitabilidade. Segui pela marginal para uma volta de gala por Cascais, com as vistas ainda maravilhadas pela encantadora paisagem e o apoio das pessoas que se iam multiplicando pelas ruas.
Seguindo já na direção de Lisboa, tendo sempre como companhia o Tejo, a partir dos 25 km comecei em perda e depois dos 30km apareceram os problemas: o pé esquerdo lembrou-se de entorses antigas e iniciou-se uma rebelião no estômago. Com o cansaço e as caibras a rondarem, o resto da prova passou essencialmente por gerir sem estragar, enquanto a consciência ia levantando questões filosóficas sobre as escolhas de vida que me tinham levado até ali, implorando para que esta fosse a última maratona.
Com a aproximação do fim, na Praça do Comércio, o corpo recompôs-se e passei a correr também com o coração. Na última curva antes do Arco da Rua Augusta encontrei as minhas princesas, puxei a mais pequena para a corrida e juntos cruzamos a meta num momento especial. De repente, tudo fez sentido, ainda que o tempo tivesse ficado abaixo das expetativas, perto das 3h 55m, mas foi a corrida possível. Terminar uma maratona com uma boa gestão de esforço é um desafio complexo de equilíbrios a vários níveis, num teste democrático de consistência em que só passa quem souber. Deve ser sobretudo isso que a torna tão difícil quão desejada, na certeza em que devolverá depois um troféu em forma de memórias inesquecíveis.






