sunrise@CântaroMagro_24

Após um ano de interregno, voltei ao sunrise@CântaroMagro, para a décima segunda revisitação à minha geografia sentimental. Como habitualmente, a proximidade do solstício de verão leva-me à Estrela para mais umas aventuras pela montanha. A meteorologia ainda ameaçou uma mudança de planos, mas nem a ventania fria no maciço rochoso nos levou as intenções.

Num sábado pintalgado por chuviscos nas terras baixas, cheguei ao estacionamento do cântaro por volta das 11h. Uma neblina subia levemente pelos vales e envolvia os cumes. Feitos os preparativos, saltitei pelo trilho pedregoso até ao Covão Cimeiro. Lá encontrei uns turistas perdidos à descoberta Estrela e encaminhei-os pelo percurso para o Covão d’Ametade. Passei pela floresta hermínia de soslaio e avancei para um almoço solitário no Vale da Candeeira. Com a chuva recente, para atravessar a ribeira homónima foi necessário tirar toda a roupa que sai por baixo, mas lá segui o meu caminho.

Como o trilho não mostrava sinais de ser limpo há algum tempo, receei que iria ter mais problemas, mas a serra parece saber cuidar melhor de si que responsabilidades alheias. Na chegada à elegante Lagoa da Paixão aproveitei para descansar um pouco e subi depois ao imponente Fragão da Poio dos Cães para uma merecida visão inteira do vale, num dos locais mais interessantes da serra. Seguiu-se um passeio pelo planalto do parque. Ainda considerei dar um salto ao Cântaro Gordo, mas vendi-me a um momentâneo conforto comercial da Torre. Para trás tinham ficado cerca de 20km / 6h de serra.

Depois, refiz em mim o Cântaro Magro. As mãos e pés já parecem conhecer de cor os recantos da subida, desde a dança no ferro cravado na rocha até aos cumprimentos pelas frestas graníticas do ponto mais técnico. Apesar de já ter perdido a conta a quantas vezes fiz a subida, chegar ao topo representa sempre um fascínio quase inefável. Entrei depois em modo automático, contornando as vistas e as memórias. O primeiro exemplar d’O tempo inquieto ainda resiste. Com a humidade, já não permite que seja desfolhado, como se um estranho encanto impedisse que a história pudesse ser relida, mas ainda resiste.

Desta vez teria companhia no cântaro e pouco depois desci e subi com o Filipe e o Luís, ainda a tempo para colocar a conversa em dia e aproveitar o pôr do sol. As terras altas da Estrela ficaram então envolvidas por um anel alaranjado muito fotogénico. O frio foi-se adensando e por momentos pareceu que o vento poderia levantar-nos do chão, mas tais notícias seriam manifestamente exageradas. Depois, como habitualmente, o frio adormece e o vento acalma-se, como se a maciço rochoso aceitasse por fim a nossa presença.

Acordamos por volta das 5h 15h e pouco depois juntaram-se o João e o Sérgio. O céu começava a clarear e ao longe um mar de nevoeiro espraiava-se sorrateiramente pelas terras baixas. Várias porções de nuvens enfeitavam o céu em expetativa. O tempo foi passando e o astro lá fez o seu caminho, pintando paulatinamente o céu de cores quentes. A conversa, os aperitivos e as fotos foram-se sucedendo de forma natural e quase sem darmos por isso tinha-se fechado a renovação de um momento simples e memorável.

Com as trouxas arrumadas, despedimo-nos do cume e descemos para o estacionamento. A neblina foi-se adensando e dali a pouco tempo encerrava o cântaro, como se a montanha estivesse a fechar a janela da experiência. O sol nasce em todo o lado, mas ali, por todo o contexto e envolvência, é sempre especial. Até para o ano.

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