Maratona do Porto

Após uma participação por curiosidade e respeito à minha geografia sentimental na Maratona do Gerês, no ano passado arrastei-me pela Maratona da Europa, em Aveiro. Como ainda não me sentia um maratonista à boa medida das minhas humildes expetativas, inscrevi-me na Maratona do Porto, que decorreu precisamente no dia em que faço 10 anos trabalho no Porto, para ver se resolvia o enguiço. O objetivo era simples: sempre a correr e terminar abaixo de 4h.

Os treinos decorreram com a normalidade possível, incluindo alguma preguiça, empenos que iam deixando pequenas mazelas e a habitual dificuldade em acertar com os pormenores para alcançar a consistência, incluindo: ritmo e respetiva forma de correr, momentos de ingerir bebida e alimentação, habituação do corpo à alimentação em corridas longas, roupa e calçado adequado e, sobretudo, aprender a lidar com a deceção, cansaço e outras vicissitudes. No teste decisivo cheguei aos 33km sem encontrar o “muro”, o que adicionou alguma confiança. Afinal, talvez fosse possível. A distância pode parecer perto dos 42km, mas os trastes dos últimos quilómetros tendem a esticar para lá da nossa vontade, exponenciando os problemas. E, numa maratona, cada pormenor multiplicado por 42 pode tornar-se num problema.

Como é habitual nestas coisas, correr uma maratona é um acumulado de arrependimentos até à meta, onde, se tivermos sorte, tudo se transforma em felicidade. O meu primeiro arrependimento foi no levantamento do dorsal, depois de uma 1h30m de trânsito num Porto alagado. Talvez pelos milhares de pedidos dos atletas, S. Pedro antecipou o dilúvio. Da minha parte, peço desculpa pelo transtorno.

Também como é habitual, a noite anterior a uma prova é mal dormida, com meio olho aberto, não vá alguém antecipar o tiro de partida. Entre milhares de pessoas, o estacionamento foi mais fácil do que estava à espera e lá segui para a zona da partida. O percurso é uma maravilha, mormente quando vamos junto ao mar ou ao rio. Consegui acertar com os momentos de bebida e alimentação, incluindo a parte do sal, para garantir que nem todos os minerais me abandonavam. Consegui chegar relativamente bem e confiante aos 35km. Porém, já em terreno desconhecido, fui depois lutando com o cansaço.

A partir dos 37km a vida foi-se complicando ainda mais e fiz questão de esclarecer com o alter-ego que estava proibido de chegar a casa e procurar pela próxima maratona. Não cheguei a encontrar o “muro”, mas tive de desligar a consciência, que apelava por alguns momentos de caminhada e sobretudo tive de ajeitar muito bem a forma de correr: o pé esquerdo já estava meio empenado e os músculos da perna direita estavam com o dedo no gatilho para ligarem as cãibras, o que felizmente não aconteceu.

Já depois de passar pelas pequenas e infernais subidas finais, alinhado com a meta, tudo se transformou em pura magia. Apesar do sofrimento final, é uma sensação incrível terminar uma maratona. Ali, tudo se conjuga num momento de perfeição, desde o apoio do público à superação do desafio. Está feito e, por mim, relativamente bem feito. Hoje sinto-me maratonista. Amanhã, logo se vê. E nada melhor do que terminar com um registo que o alter-ego considera memorável, mas talvez seja apenas fácil de memorizar: 3h33m33s.

Maratona do Porto

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