Dia de voltar a correr do trabalho para casa

Certas ideias são como as nortadas: uma pessoa até se pode queixar, mas depois de o corpo se habituar ao embalo já de pouco adiantaria mudar e poderia até acontecer que algo em nós se enjeitasse e nos tombasse. Algures em 2019 achei que seria boa ideia voltar do trabalho para casa a correr. O problema é que o trabalho se centra há cerca de uma década a meio do Porto e, entretanto, aprendi a chamar casa a Esmoriz.

De comboio em metro, a ida fez-se e o trabalho desfez-se. Hora então de saltar do conforto para as sapatilhas e lá me fiz ao caminho. Bem posso calcorrear os trilhos geresianos de olhos entreabertos, mas as ruas da cidade mantêm-se misteriosas para mim. Entrei na Rotunda da Boavista distraído e só acertei com a saída à terceira tentativa. Por momentos temi que, condenado a correr, tinha a vida presa numa rotunda sem saídas.

Cruzei a Ponte da Arrábida, desci ao rio e limitei-me depois a seguir as águas. No início o vento ainda me tentou levar a montante, mas depois de chegar ao Atlântico apanhei uma nortada vigorosa que me empurrou até casa. Pelo meio, três ideias atravessaram-se ao caminho:

  • A primeira, foi notar o privilégio que é puder fazer isto, num percurso fantástico à beira-mar (ainda que o corpo se lamente do trato).
  • Na segunda, fiquei contente com a minha evolução. Da primeira vez que tentei fazer isto, tombei ao passar pelo Senhor da Pedra e fiz o resto do caminho aos arrancos. Desta vez, o caminho fez-se quase num fole. Isso, ou era o efeito da nortada. Correr é aceitar que o corpo vai ser sujeito a mil dores. Para saber correr é preciso identificar e resolver as que têm solução, quer seja através de treino, calçado ou nutrição.
  • A terceira entrou-me pelos ouvidos quando Miguel Torga, que me acompanhou durante a aventura com o seu Diário III, declamou “A canção para minha mãe”. O sol empoleirava-se em despedida no horizonte, “à sombra das roseiras outonais”. Se lhe contar sobre este dia, entre silêncios e divagações, no seu pragmatismo, certamente haverá de questionar: “P’ra quê?”.

No final, os cerca de 31km fizeram-se em cerca de 2h40 de uma ideia consumada, talvez nem boa nem má, quer seja como motivação e treino para uma maratona ou só porque sim.

 

Dia de voltar a correr do trabalho para casa

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