Sombras de Silêncio #358

Após perceber qual tinha sido o meio de transporte, Girolme anuiu, compreendendo a situação. Dececionado, ainda considerou a hipótese de ir a pé até ao hospital, mas julgou que o melhor seria ficar por ali. Contudo, nem ele nem Asdrúbal viriam a saber mais alguma coisa de Alberto. Nessa manhã, dado o estado irreversível da lesão, Alberto foi transferido para o hospital de Abrantes numa carrinha da Guarda. Sairia de lá no dia seguinte para casa, levando apenas o conselho de trocar a V5 por uma cadeira de rodas. Ao saber dos desenvolvimentos, o agredido desistiu da ação em tribunal e um súbito inquérito ilibou o guarda do sucedido, deixando Alberto preso a um deambular moribundo pelo resto dos seus dias.

Naquela manhã, Girolme esteve mais algum tempo com Manel. Contudo, ao perceber que Asdrúbal poderia alongar-se no regresso, decidiu voltar ao mosteiro. Tinha de reaprender a profissão e estava empenhado em fazer um bom trabalho. Posteriormente, regressaria para receber notícias do amigo. Pouco tempo depois, Manel correu atrás de Girolme, imitando o som de uma mota, e ao reencontrá-lo convidou-o para a festa que iria decorrer no domingo seguinte, em honra de Nossa Senhora da Fátima.

Num primeiro instante, Girolme considerou o convite um pouco estranho, dado que ainda há poucos dias tinha estado em Fátima, na celebração das Aparições. Considerou então várias hipóteses, mas Manel não lhe conseguiu explicar de forma convincente a razão de novas comemorações. Pensou depois que, tal como se dizia que Deus estava por todo o lado, também Nossa Senhora deveria ter o dom da ubiquidade, explicando-se assim a Sua aparição naquele lugar tão afastado de Fátima. Todavia, desconfiou que, pelo aspeto da aldeia, deveria ter sido uma passagem muito curta. De qualquer forma, Girolme ficou muito agradado com a perspetiva de continuar a encontrar Nossa Senhora por onde passava; representava a certeza de que estava no caminho certo.

Depois de agradecer o convite, Girolme continuou pelo caminho, trocando cumprimentos com as pessoas que ia encontrando, enquanto as incertezas se escondiam por detrás da desconfiança. Passou pela capela de Nossa Senhora da Cabeça e fez questão de lá deixar uma oração, olhando com curiosidade para o seu interior. Ao contornar a capela reparou na existência de um pequeno degrau, com menos de um palmo, que se alongava ao longo do seu perímetro. Tentou equilibrar-se em cima do degrau, agarrando-se às pedras salientes do edifício. Ao consegui-lo, arrastou-se em cima do degrau, mas rapidamente caiu e desistiu. Seguiu depois pela escadaria, mirando o mosteiro à procura do seu segredo nos telhados. Inverteu então o caminho para a casa dos caseiros e prosseguiu para uma belga onde a família andava a arrancar ervas daninhas numa sementeira de feijões.

Sombras de Silêncio #358

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