Sombras de Silêncio #331

Durante a missa, respirando uma fé inabalável, Girolme desviou a atenção do momento e, fechando o olhar no futuro, tentou imaginar a aparição de Nossa Senhora. Estava então decidido a resolver o terrível imbróglio e apenas lhe bastaria um presságio de esperança. Percebeu então, como se fosse uma revelação, o que haveria de fazer. Tal como Pedro tinha aparecido para o salvar do homem colorido, também o aparecimento de Alberto deveria ter um sentido mais profundo. Rodeado de certezas, Girolme sentiu mesmo que conseguia percecionar o caminho iluminado pelas velas da fé à descoberta do que se escondia por detrás da canção que o pai lhe tinha ensinado. Iria para Maceira Dão! Sempre confiara em Nossa Senhora e, naquele momento, sentiu-se indubitavelmente tocado pela Sua vontade. Faltava apenas que Alberto aceitasse levá-lo, mas acreditou que o pouco dinheiro que lhe restava o poderia convencer.

Quando a homilia terminou e todos se preparavam para regressar, Pedro aproximou-se de Girolme e disse-lhe que o levaria até Santarém. Girolme, com um ar tímido e de voz tolhida, respondeu que decidira não ir para Santarém e perguntou logo depois a Alberto se poderia apanhar boleia com ele para Maceira Dão. Tal inversão de vontades deixou todos estupefactos. Alberto ficou por alguns instantes a empatar palavras na boca; por um lado, não era mau ter companhia; por outro lado, ficaria com um homem ao seu cuidado, numa altura em que nem de si conseguia cuidar. Acabou por encontrar uma solução descomprometida e respondeu que Girolme precisaria de um capacete para andar de mota. Nas muitas ponderações de Girolme sobre o que sucederia depois de revelar a sua decisão, tal nunca fora considerado. Todavia, não estava disposto a desistir tão facilmente e acrescentou que iria de imediato comprar um, caso Alberto esperasse por ele e o dinheiro chegasse. Girolme disse ainda, para evitar mal-entendidos desnecessários, que fora o pai, há muitos anos atrás, quem lhe dissera que tinha familiares em Maceira Dão e que por lá viviam num mosteiro.

Sombras de Silêncio #331

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