Sombras de Silêncio #312

Girolme permaneceu contemplativo por algum tempo, juntando mil ideias numa história. Surgiu então um homem que aparentava ter cerca de trinta anos, todo vestido de negro, com uma capa que lhe arrastava pelos tornozelos.

– Quer alguma coisa especial? – perguntou o homem.

– Eu quero nada… quer dizer, sabe como é que eu posso ir até lá abaixo? – retorquiu Girolme, sorrindo, ainda perdido nas suas considerações.

– Lá abaixo? Oh men, tasse bem, você não precisa de ir lá abaixo que eu tenho cá em cima tudo o que é bom! Para quê é que você quer ir lá abaixo? Olhe que é uma canseira e eu garanto-lhe, pela minha mãezinha, que o meu produto é do melhor – respondeu o homem, que deu depois uma reviravolta para afugentar os olhares desconfiados e abriu o capote na direção de Girolme, revelando então alguns saquinhos suspensos nos bolsos.

Ainda que num primeiro instante Girolme se tivesse assustado um pouco com a atuação, compreendeu a vontade do homem e sorriu numa gargalhada comedida.

– Muito obrigado, mas olhe que eu agora preciso de farinha, que fiquei sem casa.

– Ficou sem casa e não precisa? Pois eu digo-lhe que há alturas na vida em que parece que até os pombos só existem para nos lixarem o juízo; tudo corre mal e a vida está feita num oito. Mas depois de meter uma coisinha destas, vai-lhe parecer que está no país das maravilhas e até os dos grilos cantam como a Amália. Olhe p’ró que eu lhe digo! Você é novo por aqui? Nunca o vi cá. Por acaso não é… – interrompeu o homem, vincando então um aspeto ameaçador.

Girolme, que se foi assustando ao longo do discurso, deu dois passos atrás e tentou encobrir o medo com um sorriso.

– Não… não me cheira a bófia. Mas então? O que é que vai levar? – insistiu o homem, dando um passo em frente.

– Mas eu quero nada… já tenho fogão – respondeu, de seguida, Girolme, encolhendo os ombros e rezando para que algum milagre o levasse dali.

– Então quer dizer que estiveste aqui a fazer-me perder tempo, é isso men? Sabes quem eu sou? Eu não gosto que brinquem comigo! Deixa cá ver isso – o homem esticou a mão e tirou-lhe o pífaro.

Girolme não ofereceu qualquer resistência e deu mais três passos atrás.

– Vai-te, pobre diabo! Pareces não ter onde cair morto.

Sombras de Silêncio #312

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