Sombras de Silêncio #266

Bilinho apagou as luzes e preparava-se para fechar a porta quando surgiu um vulto que o empurrou e forçou a entrada na igreja. Estremunhado, Bilinho levantou-se logo depois. De vitupério em vitupério entrou na igreja e foi ligar o interruptor. Encarou então com Marco, que seguia em direção à urna.

– Vai-te, diabo, senão dou cabo de ti! – ameaçou Marco.

– Era escusado… tanta violência! – queixou-se Bilinho.

 Marco enfureceu-se ainda mais e procurou, em vão, algo para lhe atirar. Gritou-lhe depois para que desaparecesse e deu dois passos de raiva na sua direção. Bilinho pôs-se de imediato em fuga e saiu do edifício. Ao notar que Marco desistira de o perseguir, mais por curiosidade do que pela responsabilidade, Bilinho voltou para trás e foi-se pôr à porta da igreja, espreitando lá para dentro. Marco estava ao lado da urna, segurando uma mão de Sofia. Após largos momentos de silêncio, Marcou retirou do bolso um fio com um coração feito de ouro, que os pais lhe tinham dado para começar a vida em Évora, e meteu-o debaixo do vestido dela. Voltou depois para o banco e deitou-se, enquanto ia fazendo promessas de vingança e rogando a Deus que o assistisse na vontade.

Logo que o fio brilhou nas mãos de Marco, Bilinho já não conseguiu arredar-se dali. Não lhe saía da cabeça que o ouro não tinha qualquer utilidade debaixo da terra e estava disposto a ficar ali de plantão até que o amante fosse embora. Afinal, fora o próprio cónego quem o mandara fechar a igreja e defraudar tal vontade seria ofender a Deus. Porém, ele apenas não contava com a resiliência de Marco, que permaneceu na igreja toda a noite.

Quando Carminda, uma beata viúva muito dedicada e que ficara de trazer rosas para enfeitar a igreja, chegou pela manhã, encontrou Bilinho estendido a dormir na entrada e a porta da igreja aberta. Ao passar por ele deu-lhe um pontapé e lembrou-o que aquele não era sítio para curar bebedeiras. Entrou depois na igreja e encarou com Marco, ainda de guarda à solidão. Ao vê-lo, apiedou-se dele e rogou-lhe que saísse dali, pois Tirinhos deveria estar a chegar. Desgostoso, Marco anuiu e despediu-se de Sofia com um beijo na testa. Ao notá-lo, Bilinho escondeu-se de Marco. Todavia, voltou logo de seguida e seguiu até à urna. Carminda mandou-o então para o cemitério a fim de confirmar se estava tudo pronto para o enterro. Insatisfeito e mal-humorado, Bilinho acabou por consentir. Enquanto ia a caminho do cemitério, Miguel Girolme viu-o e foi ter com ele, curioso por saber onde é que ele tinha passado a noite.

Sombras de Silêncio #266

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