Sombras de Silêncio #236

Miguel, que recusou inicialmente, viu-se obrigado a aceitar mediante a insistência. Porém, como não sabia o que fazer com ele, ficou à espera que o outro tomasse a primazia. Faiscou depois o fósforo e chegou-o ao cigarro, inspirando de forma demasiado prolongada. Com os pulmões e a garganta comprometidos, começou a tossir de tal maneira que expeliu o cigarro para cima da toalha sobre a mesa e desequilibrou-se na cadeira, caindo para o chão. Levantou-se então um burburinho e enquanto Isabel acudiu à toalha, praguejando contra o português, os homens desataram a rir de tal maneira que era difícil descortinar se Pablo estava a rir ou a chorar. Miguel continuava zonzo no chão, sem perceber o que lhe tinha acontecido. Gabriel pegou-lhe nos braços e levantou-o, sendo que Pablo aproveitou para lhe dar algumas pancadas nas costas.

Lá fora a chuva continuava a cair intensamente, desencorajando a corrida que separava os três do moinho e de uma noite de descanso. Carlos e Gabriel foram depois buscar dois guarda-chuvas e decidiram pôr-se a caminho. Miguel seguiu atrás deles. Porém, a chuva era tanta que parecia que provinha de todas as direções e deixou-os ensopados. Pior do que ter a roupa molhada, para Miguel a chuva acrescentou o inconveniente de ter molhado também o cobertor que Isabel lhe desenrascara para passar melhor a noite.

O moinho de vento, com as quatro velas brancas triangulares que envolviam os braços, tinha a cúpula cónica revestida de telhas pretas. No seu interior, do telhado descia uma elegante engenharia de ripas e troncos de madeira que fazia rodar a mó. No exterior, as duas pedras grandes prendiam uma das velas e impediam o seu funcionamento. Lá dentro, o espaço exíguo estava dividido entre um amontoado de sacos de cereais e dois colchões já velhinhos, onde Carlos e Gabriel se acomodavam. Carlos foi de imediato acender a lamparina de óleo. Gabriel pegou num balde e colocou-o no chão coberto de farinha para apanhar os pingos que caíam de uma fenda do telhado. A porta abanava e do lado de fora o vento assobiava, como se fosse uma alma furiosa à procura de um espaço sossegado. Gabriel pegou depois num seixo e colocou-o contra a entrada. Miguel insistiu então com Gabriel para que esperasse um pouco antes de apagar a lamparina, pois queria «ajeitar o relógio». Deitaram-se de seguida, sendo que os portugueses ficaram juntos e a conversar.

Sombras de Silêncio #236

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