Sombras de Silêncio #9

– Ainda quer que leve o relógio? – perguntou Luís, que entretanto apareceu na entrada do curral.

– Sim… quero – respondeu o pastor, hesitante.

Apenas nos anos de cárcere não teve o relógio consigo, quando o tempo se arrastava numa melancolia lenta. Relembrou depois as palavras que o pai lhe segredara há mais de setenta anos para que nunca se separasse dele.

– Tem-no consigo? Amanhã vou à vila e trato disso.

Miguel levantou-se e entregou-lhe o relógio. Voltou depois para a ordenha, revisitando os vários momentos em que esteve na eminência de perder o seu Cortébert Speciale. Desistira de encontrar o estranho tesouro, mas guardava as memórias do relógio como se fossem o destino da sua felicidade.

Após terminar o serviço, Miguel levou as latas do leite até à casa dos caseiros, deixando-os com um sorriso. Prosseguiu até à sua casa no mosteiro, onde finalmente pôde emprestar o corpo a um descanso mais demorado. Disperso sobre a cama, fechou os olhos e foi conduzido até outros mundos; perdeu-se depois por outras guerras. Era um sonho que já o perseguia há algum tempo. As criaturas inferiores tentavam subir dos infernos e enfrentavam as entidades angelicais, que beneficiavam da parcialidade divina. O pastor encontrava-se aprisionado por uma corrente de ferro pelo pé entre os dois mundos, rodeado de abutres que esvoaçavam num círculo de dor. Miguel acordou sobressaltado à primeira vertigem e reencontrou a calmaria do seu quarto. Ainda que no seu âmago soubesse que era apenas um sonho, assustava-se com o momento em que seria confrontado pelos pecados cometidos. Tentou então divisar os seus delitos passados, procurando para cada um deles possíveis desculpas que o ilibassem para a posteridade. Todavia, parecia-lhe que o julgamento derradeiro já decorria e a acusação levava uma vantagem considerável. Tal como em muitos outros momentos da sua vida, receava saber menos do que devia ou precisava para os enfrentar com confiança.

Após compreender que a tarefa talvez fosse mais difícil do que aparentava, Miguel levantou-se e foi acender a lareira. Completou depois o jantar com queijo e marmelada. O crepitar da lenha era o único ruído que percorria a cozinha. Miguel aproveitou para descansar a cabeça sobre a mesa, dormitando na expetativa de não encontrar qualquer criatura, de índole boa ou má. Algum tempo depois acordou com o corpo dorido e seguiu para o quarto. Chegou-se à janela rasgada e fitou a escuridão das formas inconstantes no horizonte. Lá fora, a brisa contornava o mosteiro, invocando mitos e lendas em cada esquina, esgrimindo a sua vontade contra a pedra secular.

Sombras de Silêncio #9

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