Sombras de Silêncio #78

Os dias correram e a dor da perda desfez-se nos fragmentos da memória. No país, a república foi esbanjando parte do esplendor inicial, mas subsistia incólume às incursões monárquicas. Na Europa, tinha sido aceso o rastilho para uma guerra que se adivinhava há muito tempo. O príncipe herdeiro do Império Austro-Húngaro foi assassinado e num ápice adiantaram-se os dois lados da barricada. Os políticos portugueses, temendo que a guerra tivesse repercussões no país, e sobretudo nas colónias, ficaram de prevenção. Discutiam-se os prós e os contras de uma intervenção militar portuguesa, de forma a fortalecer a posição do país no xadrez mundial.

Algum tempo depois do funeral, Carlos e Joana consideraram que estava na altura de Miguel iniciar a instrução. Carlos convidou o alferes António Figueiredo, que servia como professor do quartel para as crianças dos militares, para um chá de intenções. Era um oficial na casa dos quarenta anos, de baixa estatura e um pouco gordinho, já calvo e com um bigode muito cerimonial. Falhara o trajeto militar regular e fora desviado para a docência, ainda que diariamente pedisse a Deus por vocação e paciência para o cumprir. Durante o tempo que lá esteve em casa, pareceu ao professor que seria prematuro colocar o petiz na escola. Contudo, decidiu admitir Miguel, para gáudio dos pais. Joana sabia da importância da aprendizagem e estava grata pelo filho ter a oportunidade que ela nunca teve.

No início de setembro, Miguel saiu de casa com o pai em direção à sua primeira aula. Estava radiante pelo estímulo que a mãe lhe incutira, ao descrever-lhe a beleza da capacidade de juntar letras e atribuir-lhes um significado. Chegou à sala, situada num edifício anexo ao comando-geral, com umas calças azuis de uma fazenda de segunda mão, uns sapatos que pediam reforma e um casaco ridiculamente apertado. Miguel seria o décimo terceiro de uma turma de rapazes. No recreio, quem mandava era Ricardinho, filho do major Luís Gonçalves. O major era um homem com trinta e poucos anos e a quem todos auspiciavam uma carreira brilhante. Ricardinho, com os seus dez anos, tinha boa compleição física; era um pouco sardento na cara e procurava de forma astuciosa imitar a relevância do pai entre os adultos.

Sombras de Silêncio #78

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