Sombras de Silêncio #62

Com o povo na rua, os oficiais monárquicos não arriscaram um ataque. A breve trecho, alguns militares, guardas e polícias monárquicos aderiram também, de forma progressiva, ao lado da mudança. Paiva Couceiro e outros defensores acérrimos do reino viram-se encurralados pela derrota. Sem alternativas, fugiram de Lisboa indagando como teria sido possível tamanha reviravolta; poucas horas antes discutiam as retaliações que cairiam sobre os insurretos. Certos da vitória, os que sobreviveram aos ataques da Rotunda foram descendo a avenida em direção ao Rossio. Chamados por um hino invencível, juntaram-se-lhes os políticos republicanos, felicitando-os e divinizando a vontade de Machado dos Santos. Com um vastíssimo auditório pela frente, os políticos republicanos subiram à varanda da Câmara Municipal. Coube a Miguel Relvas, membro do diretório do partido, decretar a proclamação da república em Portugal, para êxtase dos lisboetas que se acotovelavam no largo.

Conhecedor do desenlace dos acontecimentos em Lisboa, el-rei D. Manuel II embarcou, com a família e amigos fiéis, no iate real Amélia, entretanto fundeado na Ericeira. Inicialmente seguiram em direção ao Porto, de onde esperavam reorganizar as forças em defesa da restituição da monarquia parlamentar. Contudo, os conselheiros do monarca conseguiram convencê-lo a optar por um porto neutro, pois não conheciam a situação na cidade invicta. Assim, inverteram o rumo e foram ancorar em Gibraltar. Lá chegado, e por considerar que o iate era propriedade do Estado, o monarca exilado ordenou que o navio regressasse a Lisboa, condenando-se ao desterro do país que haveria de amar até ao resto dos seus dias.

Carlos conseguiu chegar ao “endireita”. Apesar de o homem querer participar nos festejos da revolução, o cabo forçou-o a recolocar o braço de Miguel no lugar. Tal como o povo, Miguel acolheu a república em lágrimas e acabou por desmaiar com a cura.

Sombras de Silêncio #62

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