Sombras de Silêncio #45

Afonso aproximou-se do homem e pediu aos trabalhadores para pararem o ataque. Ninguém o reconheceu. Carlos deu mais um passo em frente e, inclinando-se um pouco, perguntou-lhe quem tinha ordenado o assassinato.

– Ninguém – respondeu o das barbas desalinhadas, que aparentava ter pouco mais de uma vintena de anos, enquanto cuspia lamentos de sangue.

Insatisfeito pela resposta, Carlos pregou-lhe um pontapé na cara e reformulou a pergunta. Mas o atirador permaneceu em silêncio, flagelado pela dor. Quando Carlos se preparava para nova estimulação da memória, o homem desmaiou.

– Mais tarde haverás de falar! – prometeu Afonso Costa, dirigindo-se de seguida para dois guardas municipais que ali tinham sido convocados pela algazarra.

Os guardas carregaram o corpo do atacante, enquanto os populares felicitavam Carlos pela perspicácia com que respondeu à situação. Após o alvoroço, Afonso Costa consciencializou-se que poderia estar a caminho da sepultura. Deu então um abraço sentido a Carlos e prometeu referenciá-lo com os maiores elogios a todos os seus amigos.

Alguns dias depois, o atirador, após um vasto interrogatório em que insistiu que não haveria mais alguém por detrás do atentado falhado, morreu de «causa natural». Foi a enterrar no cemitério de Benfica, numa cerimónia acompanhada por alguns mirones estranhos e pela família, que lá foi maldizendo por entre os dentes a má sorte de viver num país onde as prisões eram atalhos para a cova.

Ainda no seguimento dos acontecimentos do Barreiro, a família de Carlos foi convidada a ir tomar chá a casa de José Francisco no último domingo de janeiro. Na sala, para além do anfitrião e de Carlos, estavam também: Afonso Costa, promotor do encontro, António José de Almeida, Afonso Pala, Machado dos Santos, militar da marinha que Carlos conhecia de outras andanças, e ainda Sebastião de Magalhães Lima, de bigode farto e cabelo longo penteado para trás, que lhe foi apresentado como sendo um jornalista de referência do movimento republicano e grande homem das letras. Num primeiro momento, Afonso Costa, empunhando um charuto, tomou a palavra e foi discorrendo elogios sobre Carlos. Até José Francisco parecia agradado com a mudança do militar. Carlos envaidecia a cada momento, confirmando de modo indubitável que era mais compensado por mexer uma palha em prol da república do que por encher o celeiro a favor da monarquia.

Sombras de Silêncio #45

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