Sombras de Silêncio #217

Miguel ficou apavorado, sem saber o que dizer. Permaneceu em silêncio até que pela insistência do homem acabou por esclarecer que era ninguém, reconhecendo de imediato que era uma resposta ridícula. Ainda assim, as circunstâncias impediam qualquer outra que fosse mais adequada ou perspicaz. Naturalmente, o homem não ficou satisfeito e ordenou-lhe que se mostrasse. Miguel acabou por aceder, deveras arreliado por ter sido apanhado tão rapidamente. Saiu então com as mãos ao alto e aproximou-se do homem. A luz que irrompia das janelas da casa permitiu uma observação demorada entre ambos. O homem, ainda jovem, estava vestido quase exclusivamente de negro, com a camisa, as calças, um chapéu e um capote alentejano, de gola larga com pelo claro; tinha o cabelo curto e irritadiço; a pele do rosto era ligeiramente escura e estava coberta por uma barba irregular e mal aparada. Mas o que mais sobressaía era a pálpebra esquerda descaída e que lhe cobria metade do olho. Em relação a Miguel, o que mais sobressaía era a fatiota cinzenta de condenado.

– Fugiste da prisão? O que é ‘tás aqui a fazer? – perguntou o homem num tom ameaçador, baloiçando uma navalha na mão direita.

Miguel esvaiu-se em medo e rogou-lhe que não lhe fizesse mal, pois iria entregar-se de pronto. Preferia voltar para a prisão do que extinguir-se numa valeta de barriga aberta. Continuou a aproximar-se do homem, com o passo medroso e de mãos no ar.

– Para! – ordenou-lhe o homem – Fugiste da prisão? Responde!

– Sim.

– Por que é que ‘tavas dentro?

Miguel não respondeu de imediato. Baixou os olhos e rapidamente chegou à conclusão que não poderia dizer que era comunista, pois deveria ser um dos piores crimes.

– Vá lá, depressa! – volveu o homem, num tom baixo e aproximando-se dele com a navalha apontada.

– Eu… atirei um homem à auga – disse por fim Miguel, titubeando.

– Só por isso? Não parece grande crime. E por que o atiraste?

– Foi… por amor.

– Ah, o amor! Lixa-nos sempre! Agora fugiste da prisão e eu tenho um problema.

Sombras de Silêncio #217

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