Sombras de Silêncio #209

No instante seguinte, o guarda retirou do bolso o relógio e abriu-o. Pegou depois no pequeno papel e foi repetindo a sentença enquanto deambulava pela cela.

– O meu relógio! – exclamou Miguel, erguendo-se.

– É no rio Dão? Responde, comunista dum raio! – insistiu o guarda.

Miguel, vendo que o guarda se afastara com a sua resposta e apesar de desconhecer a existência de um rio com tal nome, acenou afirmativamente. Nunca compreendera como é que certas coisas ganhavam o nome.

Enquanto o guarda deslizava por uma frecha de satisfação, Miguel sorria de estupefação. Estava feliz pelo desengano. Porém, a situação agravou-se logo de seguida:

– Onde está esse mosteiro do rio Dão?

Miguel encolheu os ombros, sorriu e respondeu que não sabia. O guarda Alves, depois de perder alguns segundos a olhar para o relógio, colocou-o no bolso e foi de encontro a Miguel com o bastão erguido numa ameaça latente.

– A sério que sei! Juro-lhe pela Santa! Eu nunca lá estive! Por favor, me bata – tentou convencê-lo da verdade, sem desviar o olhar.

Após um largo momento de hesitação, o guarda acreditou nas palavras do recluso. Poderia até não estar a dizer toda a verdade, mas não parecia estar a mentir. Considerou depois que não deveriam existir muitos mosteiros nas margens do rio Dão. Bateu-lhe levemente com a mão na cara e saiu da cela, satisfeito e expectante. Por fim, Miguel pôde respirar de alívio. Nem entre as suas aventuras mais audazes havia memória de uma forma tão hábil de contornar os problemas resultantes de encontros perigosos.

No dia seguinte, depois do almoço, Miguel saiu finalmente da cela. Atravessou o corredor e entrou no pátio, seguindo a fila que os outros reclusos levavam. Não sabia o dia, o mês ou o ano. Parou no meio do pátio e ergueu a cara para o céu, ficando ofuscado pela liberdade possível. Estava contente e sorriu para todos à sua volta. Os outros reclusos miravam-no com dúvidas e estranheza. Poucos o conheciam, mas Miguel sabia de cor o nome com que batizara cada um deles. Ainda pensou em meter conversa, a fim de validar as suas expectativas. Porém, recordou as regras da prisão e decidiu não arriscar. A partir daquele dia, Miguel passou a sair sempre para o pátio. O seu corpo habituara-se ao marasmo forçado e era preciso reavivá-lo, apesar de já não ser capaz de entrar em correrias. Entretanto, o guarda Alves deixou-o entregue à sua nova rotina, sem mais ameaças ou perguntas, e Miguel voltou à cozinha do refeitório. Todas as manhãs descascava batatas, mas já não era capaz de o fazer com a mesma agilidade.

Sombras de Silêncio #209

Comentários