Sombras de Silêncio #150

Miguel levantou-se num sorriso, como se nada o acometesse. Endireitou as costas, compôs a camisa e ajeitou o cabelo desgrenhado, expetante sobre a possibilidade de conseguir arranjar um trabalho, desde que o serviço não envolvesse professores ou pescadores, que eram, pelo que sofrera, as piores pessoas do mundo.

– Como te chamas? – perguntou o homem.

Miguel respondeu de pronto, muito interessado em agradar e parecer prestável. Foi sincero e de seguida contou como tinha ali chegado, esclarecendo os motivos para que o homem não o julgasse traidor e ingrato. Culpabilizou-se ainda pela má sorte do atrevimento.

– Tu não tens culpa. Onde está o teu pai?

– O pai morreu na grande guerra.

O homem ficou por momentos a mirá-lo e decidiu de facto ajudá-lo. Pareceu-lhe justo colmatar o que o país lhe tinha tirado, oferecendo-lhe uma oportunidade para remendar a sua vida e cumprir uma promessa. Contudo, primeiro era necessário mudar-lhe a aparência e torná-lo apresentável aos serviços de contratação de pessoal.

– Pareces ter pouco tino, mas és bom rapaz e já é altura de alguém de deitar uma mão. Se Deus quis, que assim seja.

Miguel mal cabia em si de contente e esboçou um sorriso rasgado, trocando o olhar entre o homem e o céu, radiante pelo facto de as preces a Nossa Senhora terem resultado de forma tão profícua. O homem explicou-lhe depois os pormenores da ajuda. Miguel desconhecia o significado da palavra «emprestar» ou o que seriam os «juros», mas confiou e acenou em silêncio, faltando-lhe apenas associar um nome à pessoa.

– Eu sou o doutor António e sou professor ali – respondeu o homem, apontando para a Faculdade de Direito, mantendo o tom sério.

De imediato, Miguel contraiu o sorriso. Ainda pensou em dizer que não estava interessado no serviço e que haveria de encontrar uma maneira de vingar na vida. Os professores pareciam persegui-lo sem motivo aparente. Parco em alternativas, concluiu que o melhor seria acreditar que daquela vez seria diferente. Afinal, tinha sido ele quem o livrara do guarda. Miguel disse então que faria tudo o que o professor quisesse, propondo-se a trabalhar de dia e de noite no que fosse necessário para lhe pagar a ousadia.

Sombras de Silêncio #150

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