Sombras de Silêncio #14

Após uma sesta reconfortante, o pastor e as crianças soltaram os cães e seguiram com as ovelhas ao longo do ribeiro dos Frades em assobios desenfreados, confrontando os cães com as suas obrigações. Ao longo da tarde, as crianças foram dando azo à sua curiosidade sobre mais histórias e o pastor lá ia respondendo conforme as lembranças e a disposição o acalentavam.

Na manhã do dia seguinte, Miguel ajudou novamente na sementeira e ao início da tarde, acompanhado pelas crianças, foi buscar o rebanho para a pastorícia. Mais uma vez, a curiosidade aguçada destas crianças exigiu que Miguel revivesse a sua vida à procura de episódios invulgares:

– Eu já comi o pão que o diabo amassou… e outras coisas… também.

– Que coisas?

– Coisas… que apanhava – divagou o pastor, rememorando as aventuras com Bilinho durante a travessia do Alentejo.

– Por onde andou? – interrompeu Hugo.

– Por aqui e por ali.

– Você não é daqui. É donde? – inquiriu Tiago.

– Nasci lá longe, em Lisboa.

– Em Lisboa? Que fixe. Ainda lá tem amigos?

– Já nom tenho… eu saí ainda novo de lá e depois voltei, ao fim de muitos anos, mas tive de… sair outra vez.

– E os seus pais, já morreram?

– O meu pai morreu… a minha mãe… não sei…

Uma penumbra de tristeza envolveu-o de súbito. O seu pensamento libertou-se depois das amarras temporais, levando-o para lá das colinas envolventes.

– Então, o que lhes aconteceu?

– Hã? – sobressaltou-se o pastor, enquanto fitava o céu com olhos de saudade.

– Os seus pais? O que lhes aconteceu?

– Os meus pais…

Sombras de Silêncio #14

Comentários