Sombras de Silêncio #133

Miguel, farto de namoros e pescarias, decidiu voltar para casa. Quando lá chegou ainda não sabia o que haveria de dizer à mãe. Arnaldo e Cina ficaram de ir a casa de um casal amigo para negociarem a compra de um cavalo, enquanto Joana deveria limpar os quartos e a sala. Miguel percorreu o terraço num passo lento e pensativo e estranhou que a porta da sala estivesse fechada. Quando estava para a abrir ouviu um grito agudo, parecido com um latido, que o fez quedar-se à espera. Rodou levemente a maçaneta púrpura da porta e espreitou com curiosidade. Escutou então a voz ofegante da mãe, mas não compreendeu o que ela disse. Ouviu depois claramente a voz de Arnaldo a mandá-la sair. Miguel entrou na sala com mil cuidados e pôs-se à escuta, temendo pelo que poderia estar a acontecer à mãe.

– Vê lá se deixas o rapaz em paz, por favor!

– A culpa é minha por teres um puto ranhoso? Deixa-te de coisas! Ainda me hás de agradecer.

– Deixa lá, ele não tem pai – retorquiu Joana.

– E mesmo se ainda tivesse, não era grande exemplo! – respondeu Arnaldo, soltando depois uma gargalhada que ecoou pela casa e terminou por ferir os ouvidos de Miguel.

– Oh, não digas isso! Que Deus o tenha – respondeu Joana.

– E por muito tempo! Vamos, que ela deve ‘tar p’ra vir! – completou Arnaldo.

Miguel espreitou depois pela porta entreaberta. Descortinou o tio nu sentado na cama e a mãe, de pé, parcialmente envolta num lençol. Arnaldo, ao notar o sobrinho, ergueu-se de súbito e tentou atirar-lhe a porta na cara, mas foi agarrado por Joana, que gritou em desespero. O cunhado acabou por empurrá-la de encontro aos ferros da cama e no momento em que lhe ia bater foi surpreendido por um empurrão de Miguel. Num relance, o rapaz ficou estarrecido com a visão seminua da mãe no chão, frágil e envergonhada. Percebeu então que ela desrespeitara a memória do pai e foi definhando em incompreensão e pudor. Impávido, não notou a movimentação de Arnaldo, que o esmurrou no nariz com um peso flamejante de raiva e o fez embater com a cabeça na esquina da porta entreaberta, fechando-lhe os sentidos por alguns instantes. Joana ainda tentou levantar-se, mas bastou um olhar do cunhado para mudar de ideias, emaranhando-lhe a vontade com um arame farpado de dor. Arnaldo ficou depois a observar Miguel, dando-lhe leves pontapés como se estivesse a validar se a presa estava moribunda.

Sombras de Silêncio #133

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