A vida secreta das caches

Poderíamos pensar que quando criamos uma cache o recipiente vai ficar sossegado durante muito tempo. Contudo, à medida que vamos praticando este passatempo percebemos que o mundo do geocaching está em constante mudança e os recipientes vão tomando sempre novas qualidades. Alguns, mais distraídos, acreditam que tal poderá dever-se às más práticas e à incúria de alguns geocachers ou muggles. Porém, após um longo e profundo estudo, realizado por uma equipa séria e honesta, conseguimos perceber o busílis da questão e é com todo o prazer que estou a partilhar as principais conclusões. Na verdade, depois da criação, todas as caches adquirem caraterísticas de seres vivos ou entidades. No fundo, ganham vida. E sempre que alguém as visita nem desconfia de tal. Esta é a vida secreta das caches!

Dependendo da sua localização, as caches podem adquirir diferentes qualidades. Por exemplo, quando inseridas num cenário mais isolado e bucólico, a cache tende a deixar-se ficar. O tempo parece correr mais devagar e a sua longevidade agradece. Algumas recusam mesmo qualquer mudança e fincam o plástico nas entranhas da sua posição. Por outro lado, as caches urbanas têm uma tendência para serem mais irrequietas. Como está sempre qualquer coisa a acontecer no meio envolvente, poderá bastar um barulho de interesse e lá vai a cache à sua vida num piscar de olhos.

Depois de ganharem vida, estas são as caches mais comuns:

Cache kamikaze – Acontece por vezes que, ao chegarmos ao local onde está uma cache, encontramos o recipiente todo partido. Parece até que alguém agarrou um pedregulho e atirou-o para cima dele. Porém, não poderíamos estar mais enganados. Apresento-vos a cache kamikaze. Quando ninguém a está a vigiar, esta cache, imbuída pelo espírito do sol-nascente, recebe indicações secretas dos satélites e explode. Por casualidade, tal poderá provocar alguns dissabores aos transeuntes mais distraídos. Todavia, se estivermos próximos, temos a benesse de aprender algumas palavras em japonês, vociferadas pelas próprias caches no momento da autodestruição. Para além de promover a cultura no geocaching, tal pode dar jeito se quisermos subir ao monte Fugi.

Cache agente-secreto – Logo depois de ter sido colocada ou algures a meio da sua existência, esta cache torna-se num agente-secreto. Dependendo da missão atribuída, a cache pode adquirir capacidades de camuflagem que tornam muito difícil a sua deteção. Normalmente, a cache movimenta-se pouco, mas apenas os olhares mais apurados conseguem descortinar a sua localização. Vai saltando de esconderijo em esconderijo, num teste de paciência ao geocacher que vai à descoberta. Cai assim por terra a calúnia que certos geocachers alteram a localização dos recipientes a seu bel-prazer. 

Cache fantasma – Embora pareça uma variante da cache agente-secreto, a existência desta cache é mais assustadora. Em algum momento da sua existência, a cache aparenta desaparecer por completo. O tempo vai passando e os geocachers continuam a registar a descoberta. Ocasionalmente surge uma não-descoberta, complementada com mais um pedido de manutenção. Poderíamos pensar que se trata de uma prática errada e que o recipiente já não estava lá. Poderíamos, não devemos. Afinal, trata-se de uma cache fantasma! Ela continua lá num estado etéreo e apenas o olhar mais apurado consegue encontrá-la. De forma facilitar a descoberta destas caches poderá ser útil assistir previamente ao curso de espiritismo. Se não for por mais, favorece o currículo.

Cache mini-buraco-negro – Esta pode ser uma cache bastante chata. Não se sabe muito bem como, mas certas caches conseguem criar um mini-buraco-negro no seu interior. Tudo o que lá cai, quer seja uma geocoin, um TB ou mesmo um simples item de troca, desaparece mal se fecha a tampa do recipiente. Acontece frequentemente que certas caches apresentam a informação de que existem lá trackables, mas depois quando se abre o recipiente apenas se encontra um vazio que nos entristece. A descoberta destas caches vem solucionar o mistério e as acusações inventadas sobre alguns geocachers que, alegadamente, andavam de cache em cache apenas para ficarem com os itens.

Cache criminosa – É fácil topar uma cache criminosa. Num primeiro relance ainda pode parecer uma cache normal, mas se olharmos com mais atenção vamos notar que o recipiente está preso a um elemento local, como uma pedra ou uma árvore. Quanto maior for o perigo representado pela cache, mais forte deve ser a corrente. Trata-se de uma cache que, em algum momento da sua vida, cometeu um crime e acabou presa pela polícia do geocaching. Desenganem-se se pensavam que era para que ninguém as roubasse. Ninguém em seu juízo perfeito quer algo com estas caches.

Cache transformer – Seguindo as pisadas cinematográficas, depois de colocada, a cache transformer consegue mudar de aparência e assumir uma nova forma. Sabemos que algumas caches fazem-no por diversão, para passar o tempo. Outras fazem-no com uma determinada missão, mas até ao momento não conseguimos descortinar os propósitos. O problema é que estas caches têm falhas de memória e quando tentam voltar à forma original, para receberem os geocachers, já não sabem a posição de algumas peças. À pressa, acabam por forçar alguns encaixes e muitas vezes sobram pedaços das suas existências atribuladas. À vista desarmada poderia parecer que alguns geocachers não tinham cuidado a manusear os recipientes, mas a verdade é bem mais inquietante e ilibatória.  

Cache toupeira ­– Esta é uma cache que nasceu conforme as linhas orientadoras do passatempo. Todavia, ao ganhar vida, começou a escavar um buraco nas imediações da sua localização de forma a criar um novo esconderijo. Muitas vezes, a cache toupeira é tão eficaz que logo à primeira descoberta já está enfiada no buraco. Apesar de algumas destas caches conseguirem sobreviver em ambientes mais duros, a maioria encontra-se na terra. Desconhece-se a explicação para este comportamento, mas suspeita-se que a cache toupeira seja uma variante da cache agente-secreto. Pois bem, agora deitamos as mãos à cabeça a pensar nas inúmeras caches, e respetivos geocachers, que já foram vilipendiadas por julgamentos sumários e injustos.

Cache Jesus Cristo – De um modo geral, esta cache é muito rara. Algum tempo depois de ter sido colocada, o recipiente morre e acaba por desaparecer. Porém, esta cache tem a capacidade de ressuscitar. Assim, é possível que venhamos a encontrar o mesmo recipiente numa outra cache, que pode ficar mais ou menos distante conforme as capacidades espíritas da cache. O recipiente poderá aparecer numa cache que já existia, mas é mais comum surgir aquando da criação de uma cache nova. Pois bem, a comunidade estava bem enganada se pensava que certos geocachers roubavam os recipientes para depois os colocarem nas suas caches; ou então para guardar alimentos, embora esta utilidade tenha menos encanto.

Dada a complexidade envolvida, não é possível especificar qual é a centelha que cria a vida nas caches. Desconhece-se também se algum geocacher já presenciou o acontecimento ou se apanhou alguma cache desprevenida, com os plásticos na mão. Inclusive, se tal acontecer, recomenda-se que o geocacher prossiga com cautela e finja que não presenciou qualquer fantasia.

Artigo publicado na GeoMagazine #25.

A vida secreta das caches

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