Sombras de Silêncio #250

Num ápice, no meio da confusão de prós e contras, alguém decidiu e dispersou a nota de culpa pelos outros, atirando sobre o general. Outros tiros se juntaram e os dois caíram no chão, moribundos, angustiados e traídos, exalando o último suspiro. O homem de Estado, que abdicou do juízo e esqueceu o medo na luta contra o estado das coisas, jazia morto. Os corpos foram depois encafuados nos porta-bagagens e os dois carros aceleraram em direção a Villanueva del Fresno, parando um pouco antes de lá chegarem. Abriram uma vala e atiraram os corpos lá para dentro, despojando-os das roupas e das identificações. Por fim, pulverizaram-nos com ácido sulfúrico.

Uma hora depois do enterro, os quatro agentes conseguiram passar a fronteira em Vila Verde de Ficalho. Por essa altura, um pouco mais a sul, Miguel também atravessava a fronteira e regressava ao país que, apesar de tudo, melhor o compreendia. Tal como Ana Maria lhe aconselhara, seguiu ao longo do Guadiana, fugindo como podia às ameaças. Afastou-se das casas, das estradas e das pessoas. Sem que percebesse que já estava noutro país, Miguel passou ao largo de Mourão e continuou a acompanhar a descida do rio até chegar a um vale que confluía aceleradamente sobre o Guadiana. Optou por se afastar à procura de um caminho mais plano e fácil de percorrer, acabando por encontrar uma estrada de terra batida que seguia por um descampado.

Ao longo da caminhada, Miguel considerou a hipótese de não ter subido para o trator naquele dia. Em cada dia redescobriria sentimentos que julgava perdidos ou há muito desgarrados de si e entregues à sua princesa. Inclinou-se então a pensar a vida e o modo como as coisas eram dadas e tiradas. Vasculhou no passado e tentou encontrar a benesse de cada acontecimento ruim que lhe tinha acontecido. Ao passar pelas recordações da prisão, começou a ouvir um barulho desassossegado que lhe prendeu a atenção. Pareceu-lhe até que seria o arfar do diabo.

Sombras de Silêncio #250

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