Sombras de Silêncio #249

Os portugueses chegaram a Olivença e prosseguiram, guinando as desconfianças pela vila. Contudo, os poucos transeuntes não se mostraram interessadas no carro. Ao saírem da vila, o general disse ao condutor que seria melhor cancelarem o encontro, por não confiar nos homens que vinham de Lisboa. Todavia, o condutor afiançou-lhe que punha as mãos no fogo por qualquer um deles. À medida que o general foi subindo o tom da recusa, o condutor considerou que teria de o convencer por outros meios e parou o automóvel. Retirou a chave e seguiu até à janela do ocupante. De supetão, abriu a porta e apontou uma pistola ao general. Mandou-o depois passar para o lado do condutor e conduzir até o lugar do encontro, que ficava alguns quilómetros mais à frente.

No banco de trás, a secretária deixou de agonizar e arranjou forças para o encher de vitupérios, desistindo logo que a mira foi desviada para a sua cabeça. À raiva e às muitas perguntas do general, o homem respondeu com um aviso sério para que se calasse e fizesse o que lhe fora ordenado. Parco em opções que viabilizassem uma saída incólume da situação, o general acabou por fazer o que lhe fora imposto, maldizendo os inimigos que lhe continuavam a enviar falsos amigos.

Cerca de dez minutos depois, o Peugeot chegou a Alconchel e prosseguiu sem que algum problema surgisse. À medida que se aproximavam do cruzamento com um caminho que ligava a Pedro Martin, o general foi recebendo ordens para conduzir cada vez mais devagar. Nas bermas da estrada, as azinheiras iam-se acumulando em desconfianças. Os outros três homens que os esperavam num carro de serviços ficaram admirados quando viram chegar o carro conduzido pelo general. Suspeitaram logo que algo não decorrera como o previsto. Todos saíram dos carros e formaram dois grupos; o general e a secretária ensanguentada ficaram de um lado, amedrontados com o acréscimo de armas apontadas.

Face à exposição dos factos e com a perspetiva de a missão ter sido descoberta pelas autoridades espanholas, seria necessário improvisar. Os quatro tinham saído de Lisboa preparados para todas as perspetivas, mas a prioridade era capturar o general. Transformá-lo num mártir iria por certo provocar dores a muitas cabeças. Depois de tanto trabalho para o capturar, soltá-lo não era uma opção. Atravessar a fronteira com ele era demasiado arriscado, considerando que a informação do incidente já deveria ter corrido desde Centilena a Ayamonte.

Sombras de Silêncio #249

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