Sombras de Silêncio #195

O inspetor saiu depois e deixou Miguel entregue ao desespero. Afinal de contas, aquele desvio afigurava-se um problema desmedido. Levantou-se quando ele deitou a mão à maçaneta e quis amenizar a situação, dizendo que era tudo mentira, mas foi de imediato empurrado pelo sargento Costa, que o fez embater com a cara contra a parede.

– Agora nós! – disse-lhe o guarda, enquanto Miguel tentava erguer-se.

– Eu… nom sei – garantiu Miguel, assustado e entregue a uma inoperância aflitiva, com os olhos raiados pelas lágrimas.

– Pois não, isso sei eu! – concordou o guarda, deitando-lhe as mãos ao pescoço, apertando e levantando-o à força – Aposto que se soubesses no que te ias meter nunca tinhas posto o rabinho de fora. Mas agora, não há nada, nem ninguém, que te possa valer. Olha bem para mim! Quem são os teus amigos?

O guarda Costa manteve Miguel preso pelo pescoço e forçou-o a encará-lo. O futuro recluso estava quase a sufocar, abanando os braços como uma árvore frágil em dia de ventania. Miguel desatou depois a grunhir e tentou, em vão, afastá-lo. O guarda deixou-o e ordenhou-lhe que se mantivesse de pé, ameaçando com mais pancada. Miguel nem teve tempo para recuperar o fôlego pois o outro guarda surgiu por detrás dele e empurrou-o na direção da porta. Seguiram até uma sala adjacente, composta por dois armários encostados às paredes e um chuveiro num dos cantos. Num outro canto havia ainda uma mesa de pinho e algumas cadeiras. Logo que lá chegaram, o sargento Costa ordenou que o detido se despisse. Miguel, que já estava assustado com o tratamento, ficou apavorado. Lembrou-se então, a vinte anos de distância, de uma sala da aula da sua infância turbulenta. Começou depois a implorar para que o deixassem sair dali. Revelou que não era comunista e que o seu aprisionamento tinha sido um enorme engano.

Perante a intransigência do recluso, o guarda Costa julgou que o melhor seria convencê-lo pela pancadaria. Bastaram duas bastonadas para que Miguel, em lágrimas, acedesse à ordem. Dorido e ensanguentado, aproximou-se do chuveiro conforme lhe fora ordenado, mas ficou sem saber o que fazer. Desconhecia outras formas de tomar banho para além do rio ou de um alguidar. Teve de ser o guarda Costa a abrir-lhe a torneira, mas cobrou o serviço com mais uma bastonada, por achar que estava a ser ridicularizado.

Sombras de Silêncio #195

Comentários