Sombras de Silêncio #178

Saraiva desconfiou que haveria uma romaria ao armazém de sal onde estava marcada a reunião dos trabalhadores com um destacado elemento do partido e decidiu adiar o espetáculo para o dia seguinte. Assim, poderia publicitá-lo de forma eficiente. Saraiva contava que as pessoas quisessem falsear as tristezas do dia-a-dia com alguma alegria. Logo que chegou acampamento, o patriarca encomendou à filha que criasse mais panfletos para anunciar o circo.

Já depois do pôr-do-sol, Saraiva, Ritinha e Miguel atravessaram a ponte e foram ao armazém, seguindo a marcha do descontentamento que ia sendo sussurrado entre os transeuntes. Desconfiava-se que em cada esquina haveria um guarda. Circulava também a ideia que o governo tinha enviado vários elementos à paisana para se misturarem entre os demais e anotarem tudo fosse o que fosse dito. Chegados ao armazém, os artistas entraram e misturaram-se entre a multidão, distribuindo os panfletos. Miguel estava um pouco assustado com o burburinho. Não gostava de grandes confusões e temia ficar encurralado em espaços exíguos de malvadez.

A um dos cantos do armazém foi improvisado um palanque, enfeitado com um pano vermelho que exibia o símbolo comunista. Entrou depois por uma porta próxima ao palanque um homem com um pano branco esburacado a tapar-lhe o rosto. Vestia a elegância num fato cinzento-escuro. Deveria ter a mesma altura de Miguel e a magreza também não era muito diferente. Dirigiu-se de imediato para o palanque e fez sinal com os braços para que as pessoas se juntassem à sua volta.

– Boa noite, camaradas! Antes de mais, deixem-me explicar por que estou desta maneira. Conforme devem saber, no nosso país tem vindo a crescer uma corrente opressora, enraizada num capitalismo desenxabido, que aniquila os direitos dos trabalhadores. Os pobres estão cada vez mais pobres e os ricos estão cada vez mais ricos!

A multidão ergueu os punhos e gritou em apoio da sentença, acrescentando amiúde outras palavras de ordem. Entretanto, Miguel aproximara-se de Ritinha e ambos escutavam com atenção.

Sombras de Silêncio #178

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