Oh Meu Deus – Ultra Trail Serra da Estrela

A caminho da Torre

Nem sempre as decisões de ano novo são ponderadas, mas podem tornar-se memoráveis! No final de 2015 decidi inscrever-me na Oh Meu Deus – Ultra Trail Serra da Estrela K100+. O nome diz quase tudo, mas nas entrelinhas desta experiência vão crescendo inúmeras histórias de superação que vale a pena conhecer. Desde janeiro e em cerca de meio ano de preparação corri mais de 600 km. “Atravessei” o país a pensar na Estrela, mas nunca cheguei a ultrapassar a distância da maratona num único dia. Ainda assim, pensei que estaria preparado para a difícil aventura.

k100+

A prova teve início às 23:59 do dia 03/06. Pela primeira vez iria correr durante a noite numa montanha e estava com grandes expetativas. Ao contrário do que previra, não consegui dormir durante o dia; o frenesim não me deixou. Pela tarde ultimei os preparativos e parti para Seia com a Valente, que me iria acompanhar durante a aventura. Depois da Ultra Trail Serra da Freita (65 km), esta seria a minha segunda prova de ultra trail. Não tenho hábitos ou superstições, mas tendo em conta a outra experiência acabei por ceder a três caprichos: um caroço de alperce para rilhar, os boxers do Homer Simpson com super-poderes e uma canção para trautear (a escolhida acabou por ser “You will never walk alone”, por razões óbvias).

Briefing

Depois da burocracia passámos algum tempo à espera até ao desejado briefing. Confesso que estava tão empolgado que nem medi bem as palavras ditas. Retive apenas que seria mais difícil do que supunha, a serra estava cheia de água, algumas partes do percurso não tinham sido limpas e a partir de uma certa altitude estava bastante nevoeiro; assim, deveríamos estar preparados para amplitudes térmicas na ordem dos 35ºC. Quando olhei para trás vi que a Valente estava um pouco assustada e isso também me preocupou. Seguiu-se o controlo inicial e mais algumas sugestões.

A chegada da meia-noite deu início à prova, que decorreu ao som de bombos. Pelas ruas de Seia tudo era fácil, mas passageiro. Rapidamente estávamos no caminho para Póvoa Velha e a subida acentuada era um primeiro cartaz de visita para o que estava pela frente. À passagem pela aldeia tivemos também um primeiro conforto de alimentação e simpatia. Subida atrás de subida passámos pela Senhora do Espinheiro e entrámos num trilho de baixa dificuldade que nos levou ao Sabugueiro. Pelo meio tivemos um encontro imediato com uma vaca assustada com a presença dos atletas.

Partida

A passagem pela aldeia mais alta de Portugal serviu para reforçar o estômago. Prosseguimos por um percurso simpático ao longo do rio Alva e à chegada à estação hidroelétrica iniciámos uma nova subida por um estradão. Passando a estrada, entrámos num trilho fechado e com vegetação que nos passava a cabeça. A descida para o Sumo da Caniça coincidiu com a primeira dificuldade técnica. Se até ali tinha andado sempre acompanhado, a partir daqui passei a andar sozinho. Antes da prova estava um pouco reticente sobre esta perspetiva, mas adorei a experiência. Senti-me parte do ambiente e completamente à vontade na noite serrana.

Após uma parte em que aproveitei para manobrar as pernas em corrida cheguei ao primeiro grande empeno da prova, a subida pela Crista do Carvalhalzinho. O momento coincidiu com o encontro do nevoeiro e tudo se conjugava para uma experiência difícil. Como já conhecia relativamente bem aquela parte do percurso à conta da cache Into the Wild e estava confiante, fiz a subida num ritmo forte. Em menos do que o imaginasse, e passando vários colegas, estava às portas da Lagoa Comprida para mais um controlo. Depois da alimentação e hidratação vesti o corta-vento e fiz-me ao resto do mau tempo. Curiosamente, à medida que fui subindo o nevoeiro foi desaparecendo. Ainda sozinho, investi em direção ao Cume e passei perto do Fragão do Poio dos Cães. Um pouco mais à frente aproximei-me dos Cântaros e pude contemplar o vale cavado do Covão Cimeiro. Foi por esta altura que começou a clarear e surgiu o momento mais espetacular da prova. As nuvens, mais abaixo, formavam um manto branco que se estendia até ao horizonte enrubescido. Senti-me verdadeiramente privilegiado por ali ter chegado neste contexto e ser abençoado com um cenário tão incrível!

Nascer do sol

A chegada à Torre decorreu num piscar de olhos. Fiz os cerca de 35 km em 6 horas e sentia-me bastante otimista para o resto da prova. Ao entrar na Torre encontrei a Tânia Magro, que estava a prestar apoio de enfermagem à prova; no meio de tanto esforço foi bom encontrar um rosto amigo. A todos os atletas era pedida uma medição da temperatura corporal e apenas os que tivessem mais de 35ºC poderiam prosseguir. Felizmente tudo correu bem para mim e à primeira tentativa voltei ao trilho, mas houve colegas que tiveram de aguardar mais de uma hora. Creio que estas medidas são de louvar, visto que, entre tamanha vontade de continuar, facilmente se pode perder a noção da segurança; os atletas podem ser os piores inimigos de si próprios.

A partir da Torre esperava-me uma longa descida até Unhais da Serra. Logo no início senti o impacto do trilho técnico que desce ao largo da Lagoa do Covão do Ferro. A entrada no alcatrão ajudou, mas a benesse acabou por se transformar em desapontamento. Começaram a aparecer as primeiras dores no joelho esquerdo (menisco) e os muitos quilómetros neste ambiente acabaram por esmorecer o espírito. Decididamente, prefiro trilhos técnicos e difíceis do que rolar em estrada/caminhos. Durante os treinos apenas tinha chegado à maratona, pelo que a partir daqui estava a entrar numa distância quase desconhecida. Todos os participantes que fui passando durante a subida acabaram por me ultrapassar nesta fase. Cheguei a Unhais já com cerca de 55 km nas pernas em 9 horas de prova. A confiança estava em baixo, não apenas pelo desconforto de já não conseguir correr de forma consistente, mas sobretudo por saber o que ainda faltava percorrer.

QuaseA refeição quente oferecida no magnífico H2otel Congress & Medical SPA serviu para avivar o espírito. Logo de seguida enfrentei o segundo momento de grande dificuldade da prova. Durante o briefing tinha sido dito que este era um dos momentos em que desistiam mais atletas. E não é para menos! Trata-se de uma subida muito inclinada e muito extensa. Algures a meio surgiram as dores nas costas e tive de parar algumas vezes. Felizmente fui mantendo alguma clarividência para perceber até onde poderia esticar o esforço sem quebrar por completo. À medida que as dificuldades foram aumentando, a motivação com que cheguei à Torre ia-se desvanecendo. Objetivamente, percebi que terminar a prova iria tornar-se num desafio muito difícil. 

Na ida para Alvôco reencontrei a esperança. As dores das pernas e das costas foram-se diluindo na descida e tive o primeiro contacto telefónico com a Valente. Tal espevitou-me os sentidos e voltei a acreditar que seria capaz de terminar. Fiquei sensibilizado pelo feedback que recebi e senti que não caminhava apenas por mim, mas também por todos os que acreditavam em mim. E isso fez toda a diferença. Fiquei também a saber que estava dentro do objetivo de terminar a meio da tabela. Desviei o olhar da terrível encosta de acesso à Torre e foquei-me em chegar a Alvôco. Porém, o trail tem formas insuspeitas de nos vergar. O trilho começou a afastar-se da aldeia e o que parecia perto transformou-se em mais uma volta pelo desespero.

Lagoa Comprida

Em Alvôco aproveitei para me reforçar, física e mentalmente, para o que se avizinhava. Iria dos 700 aos 1993 metros em cerca de 7 km. A zona é famosa pelo terrível Quilómetro Vertical! Até um certo ponto ainda deu para enganar a mente com alguma falsa planura, mas a partir do último ribeiro a subida vergou-me e fui arrastado para o calvário. Para complicar ainda mais, a zona é muito exposta e a subida coincidiu com o período mais quente do dia. Parei algumas vezes pelo caminho e foi novamente a voz da Valente a puxar-me para continuar. Passei pelos guardas de montanha da GNR e mais à frente encontrei a Valente, que tinha vindo ao meu encontro. Avistei também a Torre e voltei a acreditar que seria capaz de terminar a prova.

A segunda paragem na Torre foi bastante reconfortante, mas logo de seguida surgiu o quarto grande desafio da prova: a descida pela garganta até Loriga. Se os músculos já estavam mal, tinha chegado a vez de os joelhos se ressentirem a sério. Esta descida levantava um outro problema: tendo em conta o excesso de água que existia na serra, as rochas por onde deambula o trilho iriam estar molhadas e escorregadias. Apesar de muito cansado, fui mantendo o discernimento e nunca cheguei a escorregar ou cair. Pelo meio aproveitei para me esticar na erva para descansar um pouco. Lembro-me de pensar que não poderia ficar ali muito tempo ou arriscava-me seriamente a adormecer. Apanhei logo depois “boleia” com um colega e viemos a conversar até Loriga. Na aproximação da aldeia acabei por forçar o andamento e senti-me novamente em baixo. A nuvem negra da desistência ressurgiu no horizonte e comecei a questionar seriamente a minha sanidade.

Garganta de Loriga

Depois do abastecimento e controlo despedi-me da Valente e fiz-me ao caminho. Eram cerca de 18h30 e ainda faltavam quase 25 km para o final. Continuei sozinho pela calçada romana, tive um desencontro com um rebanho e iniciei a descida para Valezim. Ainda tentei correr pelo estradão, mas o corpo já só implorava por descanso. O sol despediu-se no horizonte e uma aragem fria voltou a diminuir bastante a minha confiança. Nesta montanha-russa de sentimentos e estados d’alma, qualquer alteração pode fazer a diferença no espírito, mesmo que seja uma simples brisa. Porém, fiz mais uma paragem de reforço e vesti a carapaça invernal.

Na metaNa chegada a Valezim encontrei um colega da mesma distância que tinha passado por provações muito complicadas ao nível dos joelhos. Apenas caminhávamos, mas reencontrámo-nos resolutos em chegar ao fim. Depois de mais uma paragem na Lapa dos Dinheiros, fizemos forças das fraquezas e vencemos os desníveis acentuados até ao canal de água que vem dos Cornos do Diabo. Seguiu-se um passeio até à Senhora do Desterro e mais uma subida até à Cabeça da Velha. Restava-nos a promessa de uma descida fácil até Seia, mas a inclinação íngreme provocou mais algumas mazelas nos joelhos. A passagem pela cidade foi rápida e finalmente cheguei onde que mais desejava, reencontrando a minha meta, a Valente. E foi uma felicidade tremenda! Para trás tinham ficado cerca de 24 horas memoráveis, espalhadas por mais de 100 km numa montanha-russa de emoções.

Logo depois da chegada tive a oportunidade de receber uma excelente massagem e bons conselhos de recuperação. Recebi também parabenizações de colegas e amigos pela conquista, que mais uma vez agradeço. Fizemos a viagem para São Pedro do Sul logo depois e quando saí do carro parecia que estava a reaprender a caminhar, tal tinha sido o empeno. Passei o resto da noite tão dorido que acordei várias vezes. Pese embora os banhos de água fria, apenas na terça-feira voltei a andar normalmente. Pensava que estaria minimamente preparado para a prova, mas ainda assim fui atropelado pelas dificuldades. À partida para a prova tinha a expetativa de terminar de dia e abaixo do meio da tabela. Acabei por apenas cumprir a segunda parte, num honroso 29º de 61 participantes. Ficaria ainda mais orgulhoso não fosse ter ido espreitar as classificações das restantes provas e ter percebido que o campeão Luís Mota conseguiu terminar a prova K160+ em menos tempo do que eu terminei a prova K100+. A minha vénia e os meus parabéns!

Percurso

Ainda que se corra individualmente, para terminar uma prova de ultra trail é necessário cumprir um exímio trabalho de equipa entre o corpo e a mente. Tudo depende de um frágil equilíbrio, que vai sendo continuamente espicaçado. As dúvidas e a vontade de desistir tornam-se tão prementes que é muito difícil manter o discernimento para perceber até onde poderemos esticar o sofrimento sem que venhamos a ter reais problemas de saúde. O cerne não está em desistir, que muitas vezes é a única opção, mas era para mim muito importante terminar com a sensação que dei tudo para conseguir o melhor possível. É esse o meu prémio e são estas as memórias que quero guardar desta experiência fantástica!   

Muito obrigado à organização da prova, pelo excelente trabalho!

Muito obrigado aos voluntários, pela ajuda inexcedível!

Muito obrigado aos amigos, pelo apoio presente!

Muito obrigado à Valente, por tudo!

Medalha


Oh Meu Deus – Ultra Trail Serra da Estrela

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