Obras do Fidalgo, Trabalhos do Diabo

Em dia de passeio pelo Douro, desde a ilustre cidade Invicta, fizemos uma primeira paragem junto à enseada da Lixa. Aproveitámos o café para uns momentos de contemplação sobre o rio e fomos depois espreitar a marina que fica atrás. Dias difíceis ali se devem passar, de pessoas “necessitadas” com pouco mais que muito para terem aqueles barcos e iates. Seguindo a N108, a estrada vai deambulando pela margem a montante rio. Apesar de a contemplação do grande espelho de água nos alegrar os sentidos, ficamos a imaginar como seria o vale sem as barragens, quando os barcos rabelos cruzavam as águas para ganharem a vida.

Prosseguindo a viagem, fomos à redescoberta de uma memória trágica em Entre-os-Rios (GC7B9H4). Já passaram 17 anos desde que a ponte caiu, mas a mágoa subsiste nas memórias pesadas do vale. É inimaginável pensar na dor dos familiares e amigos dos que se perderam. É curioso como certos acontecimentos são guardados na nossa memória, em particular as tragédias. Facilmente nos recordamos de pormenores do momento em que sabemos da notícia. Naquele dia seguia de carro pelo mau tempo em direção à Barra para o jantar de domingo à noite, passando sobre a ponte da ria. Num primeiro momento fomos visitar o Anjo, de olhos postos no rio. Porém, já se sabe, a água não volta a passar debaixo de qualquer ponte. Cruzámos depois os rios e estacionámos o olhar na confluência do Douro e do Tâmega, com as pontes reerguidas a jusante de um passado sofrível.

Depois de um almoço Entre-os-Rios, seguimos pelas margens acidentadas do Tâmega para Marco de Canaveses em busca das Obras do Fidalgo (GC15V3N). A curiosidade sobre este local tinha sido desperta desde a primeira imagem que vimos sobre a fachada da casa inacabada, mas apenas agora tivemos oportunidade de concretizarmos a visita. Deixámos o carro à sombra de carvalhos e sobreiros seculares e subimos a encosta em busca da descoberta. Como o séc. XVIII já está meio esquecido por aquelas bandas, as árvores tomaram conta do espaço que nunca chegou a ser um solar. Porém, a fachada rococó mantém-se imponente.

O povo, mais prático do que artista, é perito em aproveitar estas antigas construções senhoriais com algo que tenha utilidade, daí ter plantado à beira monumento um campo de milho. Para além de se ter perdido a oportunidade de criar ali um respeitável edifício histórico, o espaço parece refém dos maus visitantes que por ali vão deixando algum lixo. Porém, este é apenas um pequeno parêntese num local muito interessante e a visita vale muito a pena. Ainda bem que o plano de compra da fachada não foi concretizado. Um espaço tão português, tanto pela vertente do sonho grandioso como pelo destino inacabado, não deveria ou poderia ser comprado pelos dólares americanos e transladado para o outro lado do Atlântico. Depois destas obras e trabalhos, prosseguimos para o doce marasmo à beira Douro, na praia fluvial de Melres. Regressámos depois ao Porto pela N108, acompanhando o rio, em busca do pôr-do-sol litoral para mais um domingo qualquer.

Obras do Fidalgo, Trabalhos do Diabo

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