Drave Trail, em busca das cabras perdidas

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“It’s a dangerous business, Frodo, going out your door. You step onto the road, and if you don’t keep your feet, there’s no knowing where you might be swept off to.”

Esta é uma das citações com que mais me identifico no universo “The lord of the rings”. Por vezes, quando meto os pés ao caminho não sei até onde poderei ir. Gosto desta sensação de liberdade e intuição momentânea. O plano geral do dia era voltar à Drave em modo de corrida de montanha. Ainda não sei qual será o desafio trail running 2017, mas o melhor é começar a treinar. E não existe melhor local para tal do que as Montanhas Mágicas, onde me estrei no ultra trail no UTSF. A recente visualização do extraordinário filme “Uma montanha do tamanho do homem” acabou por espevitar este regresso à minha geografia sentimental.

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Subi a serra da Arada e estacionei no corte da estrada para a Drave. Iniciei a corrida e fui descendo pelo estradão até chegar ao corte para Gourim, outra aldeia abandonada da região. A paisagem estava despida pelo incêndio de agosto e fiquei curioso sobre se o recente Alojamento Local da aldeia teria sucumbido. Felizmente, ao lá chegar percebi que não, mas deve ter sido terrível assistir à ameaça eminente. Foi então que o Boss começou a cantar “The river” e suscitou um desejo antigo de descer pela ribeira do Paivô e subir depois até à Drave. Desta forma, acho que já concluí a caderneta “Formas possíveis de chegar à Aldeia Mágica”, por trilhos, ribeiras, veredas e sonhos.

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Supunha que deveria existir algum trilho. De facto, a espaços, existe. Mas é apenas um relance, que se vai perdendo e encontrando consoante os obstáculos são ultrapassados. Encontrei pelo caminho antigos moinhos e casas de xisto. Os telhados caíram, mas as paredes vão aguentando estoicamente. O isolamento é total, assim como o meu fascínio em encontrar estes resquícios de humanidade nestes locais esquecidos.

A meio da descida encontrei quatro cabras perdidas. Ao verem-me começaram a subir a encosta escarpada e ficaram a controlar a ameaça. Continuei pelo rio e não lhes prestei mais atenção, passando por mais moinhos. Vertente atrás de vertente, cheguei finalmente à confluência dos ribeiros e segui para a Drave. Foi a primeira vez que molhei os pés nesta ribeira. Nos meses de estio a ribeira corre de forma subterrânea, de cascata em lagoa, e o leito é um caminho. Porém, a travessia no inverno é mais desafiante.

moinho

Passei pela Drave quase de soslaio e investi pelo PR14 na direção de Regoufe. Tinha cerca de 1h30 de sol e subidas difíceis pela frente. Ainda com a aldeia no horizonte encontrei uma senhora que vinha para a Drave. Por coincidência, perguntou-me se tinha visto cabras na zona. Expliquei-lhe então como e onde as tinha encontrado. Creio que ela olhou para mim desconfiada e terá questionado a minha sanidade. Disse depois: “Ah, você é daqueles que andam por aí a correr? Trail running?”. Confirmei e mostrei-lhe as fotos que tirei das quatro cabras. A simpática senhora ficou radiante por saber que ainda estavam vivas. Foi só depois que nos apresentámos. Porém, eu já a tinha reconhecido. Era a dona Fátima, a pastora que aparece no filme “Uma montanha do tamanho do homem”. Contou-me então que o rebanho tinha sido atacado recentemente por lobos, alguns animais morreram e outros fugiram. A vida nas montanhas não é fácil.

cascataComo estava com o tempo contado, despedimo-nos e continuei a minha corrida. Entretanto, optei por não ir ao Alto de Regoufe e a meio do caminho investi pela encosta. Foi uma subida exigente, mas lá consegui encontrar o caminho que me levaria ao Portal do Inferno. Desvendei então mais uma visão magnífica, com os montes escalvados e o sol a raiar despedidas no horizonte. Já depois do Portal esperava-me o último desafio do dia: subida e descida das encostas da ribeira de Palhais, em linha reta pelo cansaço. Lá em cima, seguindo pelo trilho, surgiram as cãimbras, mas o final já estava próximo. No total, foram cerca de 16 km de desafios e paisagens (clicar na imagem seguinte para ver e descarregar o track).

Chegado a casa, tratei de enviar as fotos para facilitar a busca pelas cabras perdidas. Espero que as resgatem dos abismos e das noites frias e solitárias da serra. Já agora, se estiverem a pensar ir à Drave pelo PR14, não se esqueçam de passar no café/restaurante da dona Fátima em Regoufe.

Atualização

Mais de duas semanas depois desta aventura, eis que desceu da montanha a notícia que todas as cabras foram resgatadas! Segundo o relato, e tendo em conta a localização isolada, “foi uma tarefa assaz difícil”, mas tudo correu pelo melhor.

PS: Já sei qual vai ser a minha prova para 2017: Trilho dos Abutres!

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